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Aval à paz com as Farc

O Estado de S.Paulo

17 Junho 2014 | 02h 07

Reeleito no segundo turno por 51% a 45% dos votos - revertendo a derrota por 3,5 pontos porcentuais para o adversário Óscar Iván Zuluaga na rodada inicial -, o presidente colombiano Juan Manuel Santos recebeu da maioria do eleitorado que compareceu às urnas (48% do total) o endosso para levar adiante as negociações, em Havana, com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). As tratativas visam a acabar com meio século de combates e violências que deixaram cerca de 220 mil mortes e puseram em fuga 5 milhões de colombianos.

O fim da guerra com as Farc foi o único tema da campanha - por sinal, uma das mais atoladas em baixarias da turbulenta história política do país. Há quatro anos, Santos elegeu-se com 70% dos votos que traduziram o inequívoco apoio à linha-dura contra a narcoguerrilha adotada pelo então presidente Álvaro Uribe e executada por Santos, seu ministro da Defesa. Com o aval do chefe, ele chegou a ordenar uma incursão em território equatoriano para dizimar uma base das Farc ali instalada com o presumível beneplácito do presidente Rafael Correa, seguidor do então caudilho venezuelano Hugo Chávez.

A operação eliminou um dos chefes da organização, Raúl Reyes, e capturou provas de ajuda chavista. Caracas e Bogotá romperam relações. No poder, Santos - economista formado na Inglaterra e nos Estados Unidos - deu uma surpreendente guinada à esquerda. Embora mantivesse a linha do antecessor na esfera econômica, incluindo a assinatura de tratados de livre-comércio com os EUA, a União Europeia e da Aliança do Pacífico, reatou com Chávez, reaproximou-se de Correa e partiu para se entender com as Farc. Antes dele, o presidente Andrés Pastrana (1998-2002) tentara o mesmo - apenas para ser logrado pelo movimento.

Santos partiu da premissa aparentemente verdadeira de que as Farc, reduzidas a 8 mil membros, continuavam sendo um problema, ao controlar ainda 150 municípios, mas haviam deixado de ser uma ameaça. A reação de Uribe foi repudiá-lo e lançar contra ele a candidatura de Zuluaga, seu ministro da Fazenda. Inexpressivo e retrógrado, conseguiu ainda assim superar Santos no primeiro turno, ficando evidente a relutância de boa parte da população a passar uma borracha no passado, mediante a integração dos farquistas à política nacional sem pagar por seus crimes.

As negociações ainda não chegaram a esse ponto crucial. Até agora, os interlocutores se entenderam sobre a adoção, pelo governo, de programas efetivos contra a fome e a pobreza no campo; o princípio da "normalização" política da guerrilha sob a forma de partido legal; o controle do cultivo, produção e venda de drogas ilícitas (grande fonte de sustento das Farc); e o reconhecimento recíproco das responsabilidades mútuas perante as vítimas civis do interminável conflito. Se dependesse de Uribe, o movimento teria de concordar com um cessar-fogo unilateral, a prisão por seis anos de seus líderes - e desistir de formar um partido próprio.

Santos e seus aliados consideram essa uma falsa questão: a guerrilha jamais chegará ao poder pela via eleitoral, argumentam, dado o repúdio popular que os cerca. Lembram que o Exército Republicano Irlandês (IRA) não precisou amputar o seu braço político, o Sinn Féin, para que a Inglaterra acedesse, em 1998, a fazer a paz com ele. Hoje, a Irlanda do Norte é um país tranquilo. Para a Colômbia chegar a isso, Santos terá de se equilibrar sobre um fio de arame nesta fase pós-eleitoral dos entendimentos.

O presidente há de saber que os 7 milhões de votos dados a Zuluaga significam um endosso à palavra de ordem de seu mentor Uribe - "paz sem impunidade". Santos sabe, portanto, que não recebeu carta branca para fazer a paz a qualquer preço e que terá de ser menos maleável quando chegar a hora de redigir as linhas finas do eventual contrato de conciliação com as Farc. Tanto assim que, já no domingo à noite, ao comemorar a reeleição, prometeu ouvir os críticos e "ajustar o que tiver de ser ajustado" nas conversações de Havana.

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