Avanço na política externa

Foi um encontro da convicção com a oportunidade. A presidente eleita, Dilma Rousseff, escolheu o Washington Post, o matutino da elite do poder da capital dos Estados Unidos, para dar a sua primeira entrevista exclusiva a um jornal desde o triunfo nas urnas de 31 de outubro. Nela, além de confirmar de viva voz que pretende visitar o presidente Barack Obama logo nos dias seguintes à posse, "se ele me receber", Dilma anunciou o equivalente à primeira mudança na política externa da era Lula - e em um dos seus pontos mais polêmicos: a invariável abstenção nas votações sobre violações de direitos humanos denunciadas à ONU.

, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2010 | 00h00

No atual governo, o Itamaraty adotou a linha de manter-se neutro diante de projetos de resolução condenando abusos contra os princípios consagrados na Carta da ONU. Para o chanceler Celso Amorim, tais resoluções seriam hipócritas, politicamente motivadas e inócuas, quando não contraproducentes. Já o Brasil, ao lavar as mãos, se credenciaria junto aos países acusados para persuadi-los, em amigáveis conversações discretas, a mudar de atitude. Não consta que isso tenha acontecido, por exemplo, na Coreia do Norte, Mianmar, Sri Lanka e Sudão. Ou mesmo em Cuba, onde o que fez a diferença foram as pressões da Igreja e da União Europeia.

No mês passado, por 88 votos a 44, a ONU condenou o Irã por seus recorrentes atentados aos direitos humanos, incluindo a sentença de apedrejamento da viúva Sakineh Ashtiani, acusada de "adultério". O Brasil e 56 outros países se abstiveram. Antes, Lula dissera que, "se essa mulher está causando incômodo (sic), vamos recebê-la no Brasil", mas o governo de Teerã rejeitou a aparente oferta. Radicalmente diferente foi a reação de Dilma quando perguntada sobre Sakineh na única entrevista coletiva concedida depois da eleição. Ela qualificou a lapidação de uma pessoa como "uma coisa bárbara, mesmo considerando usos e costumes de outros países".

Agora, ao Washington Post ela deu dois passos além de reiterar o seu horror a "práticas com características medievais" contra mulheres. Disse que não fará "quaisquer concessões" nessa matéria e não mudará de posição depois de tomar posse. "Eu não concordo com o modo como o Brasil votou (na ONU)", admitiu com admirável franqueza. Se assim é, no governo Dilma a diplomacia brasileira deixará de se abster automaticamente em votações do gênero. O Itamaraty deverá decidir caso a caso como se conduzir, depois de se entender com o Planalto. Será um avanço substantivo em relação à política de se acumpliciar com clamorosas violações de direitos humanos para fazer boa figura junto aos governos que as cometem.

A mudança decerto implicará também no descarte da teoria complacente com as tiranias que consiste em considerar os direitos humanos como valores relativos que o Ocidente teria a pretensão de impor a nações de outra formação histórica e cultural. Essa visão amoral travestida de análise antropológica não tem adeptos apenas em setores do Itamaraty afins ao chanceler Celso Amorim. Não faz muito, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, sacou da mesma enormidade para explicar por que o apedrejamento da iraniana não seria "problema nosso".

Quaisquer que sejam as suas demais virtudes (ou seus defeitos), Dilma não admite "nuançar" a questão, como declarou ao Post. Na entrevista - concedida por sinal à editora Lally Weymouth, filha da legendária publisher do jornal, Katharine Graham -, Dilma invocou nesse sentido a sua condição de mulher e, respondendo a uma pergunta específica, disse não haver a menor dúvida de que o seu passado de prisioneira política a faz ter "um compromisso histórico com todos que foram ou estão presos por exprimir os seus pontos de vista, suas próprias opiniões".

Ela procura distinguir entre compromissos dessa natureza e a interlocução com o Irã, como parte de uma estratégia de construção da paz no Oriente Médio - valha o que valer, acrescente-se, o envolvimento do Brasil. De todo modo, a entrevista contribuirá em não pouca medida para Dilma ser recebida de braços abertos na capital da "grande nação" com que ela quer "forjar laços mais estreitos".

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