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BC faz jogo aberto no câmbio

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Não faltarão dólares no mercado brasileiro. Esta foi a mensagem principal transmitida pelo Banco Central (BC) a investidores, operadores de câmbio e empresários de vários setores, ao apresentar na quinta-feira um plano de intervenção para ser aplicado até o fim do ano. O mercado cobra clareza das autoridades quanto ao rumo de suas políticas. Pelo menos quanto a uma área de ação houve uma resposta satisfatória. Cerca de US$ 60 bilhões serão oferecidos até o fim de dezembro de acordo com um plano de atuação semanal. De segunda a quinta-feira haverá leilões de swap de até US$ 500 milhões. Às sextas-feiras haverá leilões de linha de até US$ 1 bilhão, com negociação à vista e compromisso de recompra. Poderá haver ações adicionais, em caso de necessidade, segundo se informou oficialmente.

Especialistas poderão discutir se haveria uma alternativa mais eficiente, mas o plano anunciado, além de ser claro e de cobrir um período satisfatório, tem o mérito adicional de afastar especulações sobre linhas de ação extraordinárias. A longa experiência brasileira já mostrou a inutilidade e os custos de formas especiais de intervenção, como a centralização das operações e a adoção de barreiras burocráticas à negociação de moedas.

Nem sequer se deveria, nesta altura, discutir a sério a hipótese de retorno a essas práticas. Mas operadores do mercado demonstraram inquietação quando o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, sugeriu a adoção, "no limite", do câmbio centralizado. O diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes, classificou essa especulação como "completamente fora do contexto brasileiro".

Será, de fato, uma ideia tão fora de contexto? Talvez seja, mas o professor Belluzzo tem atuado como conselheiro informal da Presidência da República e, além disso, o atual governo é conhecido no País e no exterior por seu desastrado intervencionismo. Diretores e técnicos do BC teriam poder para contrapor seu bom senso ao voluntarismo dominante no Palácio do Planalto?

Daí a importância das medidas tomadas e anunciadas, situadas no território da sensatez e da normalidade política. Se o plano apresentado pelo BC produzir o efeito esperado, a instabilidade será atenuada e a autoridade monetária realizará seu trabalho sem queimar reservas: os acordos de swap serão liquidados em reais e os dólares vendidos no mercado à vista serão recomprados pelo preço estabelecido na data da operação.

Com reservas ainda superiores a US$ 370 bilhões, o BC até poderia usar uma parte desse dinheiro para enfrentar a instabilidade. Mas o BC tem seguido uma linha prudente e é difícil dizer, por enquanto, se a ação alternativa, com queima de dólares, seria mais eficaz. Será conveniente esperar algum tempo antes de uma reavaliação.

Especialistas do setor financeiro receberam bem, no Brasil e no exterior, o plano apresentado pelo BC. Os resultados da intervenção poderão variar, influenciados tanto por fatores internos quanto por eventos internacionais. A agitação nos mercados poderá continuar por um longo período, até o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) indicar mais claramente quando começará a reduzir a emissão de moeda para estimular a recuperação da economia. Por enquanto, o programa de recolhimento de títulos em troca da injeção de até US$ 85 bilhões mensais continua em vigor. O fim do ano continua sendo a referência mais clara para a mudança de política e esse dado coincide com o prazo fixado para o plano de intervenções no mercado brasileiro.

O roteiro do BC atenua, no entanto, apenas parte das incertezas. A insegurança em relação à economia brasileira poderia ser muito menor, se o Executivo apresentasse um plano claro de administração das contas públicas, sem maquiagem, e se assumisse um compromisso crível de responsabilidade fiscal. Além do mais, tudo seria melhor se o governo renunciasse, para valer, a intervenções nos preços para disfarçar a inflação. Mas tudo isso equivaleria a renegar um estilo de política.

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