Bem-estar e o bem-fazer

Conhecem a piada do "bem-estar em uma palavra"? Pediram a um economista que descrevesse a situação do seu país em apenas uma palavra. Respondeu, simplesmente: "Bem". E se for descrever em, no máximo, três palavras? "Não tão bem".

ILAN GOLDFAJN, economista-chefe do Itaú Unibanco e sócio do Itaú BBA, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h05

Lembrei-me dessa piada estes dias. Perguntei ao famoso economista Amartya Sen, em visita ao Brasil, como reavaliava o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), décadas após tê-lo criado. Respondeu que entende hoje esse índice como um convite a reflexão mais profunda sobre o bem-estar das nações: seria a porta de entrada para que pensemos na economia para além das medidas de consumo ou PIB.

Passo boa parte do meu tempo pensando em como mensurar o que está acontecendo na economia. Parto da avaliação de que a mensuração correta é o caminho mais direto para o diagnóstico preciso, que é a matéria-prima para decisões fundamentadas (por exemplo, de políticas governamentais).

Há evidências de que as medidas tradicionais de desempenho econômico, como PIB e consumo, não necessariamente refletem a evolução do bem-estar da sociedade. Uma economia pode ter seu PIB, sua renda e seu consumo crescendo bem, mas sem o equivalente progresso em termos de bem-estar, medido, por exemplo, pela educação, saúde e desigualdade de renda da sociedade. O processo de desenvolvimento pode gerar elevação da desigualdade, da poluição, da jornada de trabalho, da criminalidade, etc.

De fato, não se encontra evidência clara de uma relação entre crescimento do produto per capita e aumento da felicidade (ou do bem-estar) medido por pesquisas de opinião (veja sumário em Will GDP Growth Increase Happinness in Developing Countries?, Texto para Discussão IZA, n.º 5.595, março 2011, Andrew E. Clark e Claudia Senik). Os resultados mostram que ao longo do tempo, num mesmo país, os dados não comprovam que pessoas que enriquecem ficam mais felizes. Apesar de existir, sim, uma tendência de os habitantes de países mais ricos serem mais felizes.

O IDH, criado em 1990, para vários países, tenta contribuir para a compreensão da economia, por meio de uma simples medida, que leva em conta esses fatores adicionais de bem-estar. O mesmo pode se dizer do recém-criado Índice Itaú de Bem-Estar Social, que, adaptando o IDH ao Brasil, utiliza vários indicadores importantes - saúde, saneamento, educação, segurança, desigualdade social, entre outros - para medir de forma mais ampla e precisa a evolução do bem-estar no País desde 1992 (veja trabalho de Caio Megale em http://bit.ly/itau_bemestar). Os fatos estilizados que saem desse índice podem ser matéria-prima para futuros estudos.

O Brasil vem experimentando uma taxa de crescimento historicamente mais alta nos últimos anos. Mas será que o crescimento maior se tem traduzido em ganhos de qualidade de vida para a população?

Os resultados mostram que, em muitas ocasiões, a evolução do bem-estar não necessariamente acompanhou a variação do PIB no Brasil. Por exemplo, a perda de bem-estar antes do Plano Real e o ganho imediatamente posterior não foram captados na mesma magnitude pela variação do PIB. Só após 2002 tanto o PIB quanto o índice de bem-estar cresceram a taxas parecidas. Mas a partir de 2008 a evolução do PIB superestima o ganho de bem-estar.

De uma forma geral, houve um avanço importante da qualidade de vida nos últimos 20 anos no País. Mesmo sem necessariamente acarretar maior bem-estar, o crescimento econômico permitiu que fosse ampliado o acesso da população a melhores condições de vida. No entanto, para o futuro, qual o melhor caminho para a continuidade do desenvolvimento?

Vai depender da capacidade da sociedade de alongar seu horizonte e pensar em políticas que gerem resultados no médio e no longo prazos (em vez de no curto prazo). Nesse horizonte, os resultados dependem mais da capacidade de 1) ampliar o conhecimento, por meio da educação; 2) estimular os investimentos via segurança e incentivos de mercado adequados; 3) criar condições para inovação e geração de ganhos de produtividade, removendo obstáculos aos negócios; e 4) recuperar a capacidade de investimento do Estado para ajudar a suprir as lacunas existentes na infraestrutura.

Estimular apenas o consumo, por exemplo, não é uma solução para o longo prazo. A ideia de estimular a economia para sair da recessão - importante contribuição do legendário economista John Maynard Keynes, após a Grande Depressão dos anos 1930 - não leva necessariamente ao desenvolvimento e melhora sustentável do bem-estar ao longo do tempo. Em entrevista recente (revista Veja, 2/5) aqui, no Brasil, Amartya Sen comentou: "Os keynesianos erram ao pensar que o mero estímulo à demanda vai resolver todos os problemas econômicos. Keynes tem relevância apenas quando estamos lidando com uma recessão. Mas ele diz muito pouco sobre o papel do governo como propulsor do desenvolvimento".

Nas últimas décadas, a economia brasileira cresceu com melhora na distribuição de renda. Tudo isso foi consequência da estabilidade (queda da inflação, risco Brasil), de instituições mais sólidas e de um contexto internacional favorável. Resultou numa "nova classe média" - a incorporação de milhões de brasileiros à classe C - e num crescimento acelerado do consumo. Resultou, também, em melhora considerável do bem-estar da população.

Para a frente o bem-estar vai depender do "bem-fazer", ou seja, da capacidade de "fazer" mais e melhor. Não basta consumir mais. Será crucial estimular mais investimento (público e privado) e melhora na produtividade. Só assim será possível manter a trajetória de crescimento da economia e a melhora do bem-estar da população que experimentamos nos últimos anos.

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