Benefícios seletivos

Por carecerem de fundamentos técnicos mais sólidos, beiram a demagogia as medidas do governo para estimular as vendas de automóveis populares e reduzir os custos dos empréstimos para o consumo. Se ganhos mais notáveis houver, eles serão auferidos por um segmento empresarial - as montadoras - com o qual o PT tem afinidades políticas históricas.

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2012 | 03h08

A insistência do Ministério da Fazenda no aprofundamento de medidas que deram resultados em outro momento, mas de efeitos duvidosos diante da situação financeira das famílias, do aumento do índice de inadimplência e das incertezas no cenário mundial que bloqueiam os planos de investimentos do setor privado, mostra sua dificuldade para compreender o impacto do agravamento da crise internacional sobre a economia brasileira. Afirmações exageradamente otimistas da presidente Dilma Rousseff, como a de que o País está "300%" preparado para enfrentar os problemas de origem externa, em nada estimulam sua equipe a procurar entender as novas ameaças à economia do País, o que torna ainda mais difícil a adoção das medidas para repeli-las.

Pela sétima vez desde o início da crise global, em 2008, o governo anunciou medidas semelhantes para estimular a economia, entre as quais a redução de tributos, a liberação de mais dinheiro para os bancos emprestarem e a redução de juros. Apenas para o estímulo às vendas de automóveis, que vale até o fim de agosto, os benefícios tributários somam R$ 1,2 bilhão. Além disso, o Banco Central liberará R$ 18 bilhões de depósitos compulsórios mantidos pelos bancos na instituição, em troca do compromisso dos bancos de emprestar mais para o consumo, reduzir o valor da entrada, baixar os juros e estender os prazos dos financiamentos.

Do lado dos investimentos, além da indústria automobilística - com o estímulo às vendas de caminhões e ônibus -, o governo incluiu também o setor de máquinas e equipamentos. O BNDES reduzirá os juros dos financiamentos desses bens.

Com a redução para zero da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na venda de automóveis de até 1.000 cilindradas (carros populares), em troca da redução de 2,5% do preço desses veículos, o governo tenta esvaziar os pátios das montadoras. Não por acaso, a história do PT começa com os metalúrgicos dessas empresas no ABC. É difícil, no entanto, prognosticar algum resultado econômico expressivo dessas medidas.

É sabido que a parcela da população beneficiada pelos programas de renda do governo do PT e pelo crescimento da economia nos últimos anos teve acesso ao carro próprio, o que permitiu à indústria automobilística bater sucessivos recordes de produção. Os dados da evolução das vendas de veículos populares, porém, sugerem que a grande maioria que podia comprar seu primeiro automóvel já o fez. Por seu nível de renda, essa fatia da população não tem condições de trocar de carro com frequência nem de comprar um segundo ou terceiro automóvel para a família. Assim, este parece um mercado já suprido, daí a provável ineficácia de medidas destinadas a estimular seu consumo adicional.

O aumento dos gastos financeiros das famílias constatado pelo Banco Central não deixa dúvida de que sua capacidade de endividamento se esgotou ou está prestes a se esgotar, o que tolhe sua intenção de contrair empréstimos, ainda que em condições facilitadas. O aumento da inadimplência, que em abril registrou a maior alta mensal desde 2002, ao mesmo tempo que mostra dificuldades financeiras dos consumidores, exige dos bancos maior cautela na concessão de financiamentos.

Ao insistir no estímulo ao consumo, para agradar a parcelas da população e segmentos empresariais que lhe interessam politicamente, mais uma vez o governo do PT deixa de cumprir o papel que lhe compete: o de, no momento de dificuldades para o setor privado, realizar os necessários investimentos em infraestrutura, para estimular a atividade econômica e eliminar gargalos que tolhem o crescimento.

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