Brasil e EUA, de novo nos eixos

Passado o mal-estar deixado pelas revelações de ações de espionagem da National Security Agency (NSA) dos EUA no Brasil, em meados de 2013, e tendo ficado claro que há métodos mais inteligentes do que a bisbilhotice eletrônica para dirimir dúvidas entre líderes de nações democráticas e supostamente amigas, a presidente Dilma Rousseff e o presidente Barack Obama devem pôr o diálogo bilateral nos eixos quando se reunirem, esta semana, durante a Cúpula das Américas, no Panamá.

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2015 | 02h02

Embalado pela decisão de normalizar as relações de seu país com Cuba, depois de meio século de estranhamento, e pelo acordo nuclear alcançado na semana passada com o Irã, o líder americano marcará mais alguns pontos ao valorizar os laços dos EUA com seu maior vizinho regional no momento em que este vive sua mais grave crise política e econômica em duas décadas. A aposta em Washington é que o Brasil superará as dificuldades, executando as medidas que anunciou para reequilibrar as contas públicas, restaurar a credibilidade da política econômica e reencontrar o rumo do crescimento.

Daí o gesto de Obama de renovar o convite à colega brasileira para que faça a visita aos EUA adiada desde outubro de 2013. Quando será realizada é assunto em discussão entre funcionários incumbidos de montar uma agenda que dê substância ao evento e marque o início de um período produtivo na relação bilateral. O primeiro passo foi a decisão dos dois governos de não condicionar a visita de Dilma aos EUA à rigidez do protocolo diplomático. Uma "visita de governo", como a própria presidente brasileira descreveu o evento na semana passada, é uma solução mais realista do que uma "visita de Estado", que criaria expectativas exageradas nas atuais circunstâncias. O importante é que o encontro dos presidentes tenha seu conteúdo reforçado por iniciativas que realcem o interesse mútuo numa maior integração entre as duas economias, algo que empresários e ministros das áreas econômicas de ambos os governos julgam essencial para fortalecer a confiança dos investidores e abreviar a crise no Brasil.

Da perspectiva dos estrategistas de Washington, as relações oficiais entre o Brasil e os EUA deram o que tinham que dar na moldura usada até aqui. A construção de um novo caminho será gradual e terá mais ou menos sucesso dependendo da capacidade dos governos de compreender e traduzir em ações os anseios das duas sociedades, que têm intensificado laços e continuarão a fazê-lo.

O ex-embaixador dos EUA em Brasília Thomas Shannon falou recentemente sobre isso ao abrir um simpósio na Universidade George Washington. "Se alguém perguntar ao meu bom amigo Mauro Vieira o que o Brasil quer dos EUA, ele dirá que é o apoio americano à candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU", disse Shannon, referindo-se ao atual chanceler brasileiro. "Mas, se você perguntar ao brasileiro nas ruas, ele dirá: isenção de visto, para poder viajar para os EUA quando quiser e sem ter de pagar US$ 160 para obtê-lo", explicou.

Conselheiro do Departamento de Estado e voz influente no governo americano em temas continentais, o ex-embaixador lembra que, se brasileiros querem poder viajar mais para os EUA e lá estudar ou abrir ou tocar seus negócios sem a chateação dos vistos, empresas americanas também buscam mais acesso ao mercado brasileiro, no qual continuam a apostar a despeito da crise atual. "Estamos chegando a um momento em que as nossas sociedades vão definir o que os governos precisam fazer para melhorar a relação entre os dois países", ponderou.

As dificuldades e incertezas do momento no Brasil interferem menos do que se supõe nos cálculos em Washington. "Não podemos nos preocupar com coisas que estão fora do nosso controle", diz um alto funcionário familiarizado com as conversas internas, referindo-se a possíveis repercussões nas relações bilaterais da fragilidade política do governo brasileiro. "Acreditamos que o Brasil superará a crise, não temos dúvida de que isso é bom para nós, para a região e para o mundo, e faremos o que estiver ao nosso alcance para ajudar."

Receber a presidente brasileira nos EUA é uma maneira de fazer isso. "Sabemos o que queremos de nossas relações com o Brasil e dizemos isso aos nossos interlocutores brasileiros", acrescentou o funcionário. A lista de assuntos pendentes é longa e conhecida. Nas questões globais, Washington reconhece que o Brasil tem tradição e capacidade para atuar e o faz com eficácia quando alinha a ação externa às suas prioridades e virtudes internas. Para o ex-embaixador americano, o Brasil projeta o seu poder internacional "pela persuasão e pelo exemplo". Por essa razão, sua capacidade de convencer e influenciar outros países depende de ações diplomáticas ancoradas em sucessos alcançados em casa nas áreas em que enfrenta seus grandes desafios.

"O Brasil não precisa esperar, pedir permissão ou financiamento para ninguém. O País tem capacidade de fazer isso sozinho", disse Shannon. "Essa é a sua glória e frustração. Há muito poucos países que estão no lugar do Brasil." Para ele, "quando o Brasil vai devagar, ele vai devagar por causa de si mesmo, por causa das decisões que não está tomando". Do lado da glória, o País mostra, na paisagem eleitoral e nas demonstrações de rua, "que os brasileiros estão determinados a redesenhar o seu sistema político e a democracia, para ser bem-sucedidos no século 21", observou. Nesse contexto, destacam-se o ambiente de liberdade que permite que os brasileiros protestem e a liberdade de expressão, cujo valor foi reiterado na semana passada por Dilma Rousseff, no momento mais baixo de sua Presidência.

São tópicos sobre os quais Obama e Dilma certamente conversarão no Panamá quando abordarem os dois temas candentes da política regional: a reintegração plena de Cuba ao Hemisfério e a crise interna na Venezuela.

*Paulo Sotero é jornalista e diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars em Washington 

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