Brexit no ventilador

Levará um par de anos para se saber ao certo se e em que termos a Grã-Bretanha deixará a União Europeia (UE). Talvez saia apenas uma parte dela, a “pequena Inglaterra” que restará do Reino Unido caso a Escócia e a Irlanda do Norte, que optaram por permanecer na UE no referendo de 24 de junho, escolham o caminho da independência e sejam aceitos pelos vizinhos europeus. Talvez fique tudo mais ou menos como está, com ajustes para controlar os fluxos de imigração na Europa e neutralizar a causa próxima do Brexit.

Paulo Sotero*, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 02h01

Uma ideia, já em discussão, é a adoção de um sistema de suspensões temporárias da entrada de novos imigrantes em países-membros quando limites preestabelecidos forem superados. Mas seja qual for o desfecho da discussão desencadeada pelo triunfo apertado do voto antieuropeu dos britânicos, um dano colateral considerável do referendo é a perda de credibilidade da narrativa positiva da globalização por seus melhores narradores – a grande imprensa inglesa.

A outrora vasta nação britânica, na qual o sol não se punha na era da expansão do capitalismo mercantil, perdeu império e majestade ao longo do século 20. Manteve-se, porém, entre os grandes, lutando acima de seu peso, como pátria da língua franca que se firmou com o surgimento, na maior de suas ex-colônias nas Américas, da nação mais poderosa. A perda das colônias não inibiu a capacidade das elites britânicas de pensar o mundo em termos globais. A partir da década de 1980, transformaram essa habilidade em valioso instrumento de projeção de soft power graças ao uso competente das tecnologias de informação. Exercida com talento e saudáveis doses de humor inglês, ela fez de veículos como a revista The Economist e o jornal Financial Times verdadeiros porta-vozes das virtudes da globalização.

Em meio às especulações sobre o significado e as implicações da inesperada vitória “Leave”, ambas as publicações acusaram o golpe. “O triunfo da campanha do Brexit é uma advertência à ordem liberal internacional”, afirmou a Economist em sua edição de 2 de julho, na qual usou a expressão que serve de título deste artigo. “Proponentes da globalização, incluindo esta revista, precisam reconhecer que tecnocratas cometeram erros e pessoas comuns pagaram o preço”, observou ainda a Economist, referindo-se a decisões do governo da UE em Bruxelas, à adoção do euro, no qual a Inglaterra não embarcou, e à criação nos mercados financeiros da City e de Wall Street de instrumentos financeiros “para enganar reguladores”, que levaram à pior crise econômica mundial em oito décadas, exigiram socorro dos governos a bancos e grandes corporações e, depois, cortes orçamentários que transferiram os custos da solução às classes médias nos dois lados do Atlântico.

O Brexit “é um golpe inacreditável para o establishment da Inglaterra”, constatou um ainda atordoado Lionel Barber, editor executivo do Financial Times (FT), em conversa gravada, um dia depois do referendo, com Janan Ganesh, um dos principais articulistas do jornal. Com a libra em queda livre nos mercados, os dois jornalistas falaram da “baixa estima das classes governantes” entre os ingleses e concordaram que a vitória do Brexit havia transformado “em fumaça” os dois principais atrativos da economia do país para os investidores: “a estabilidade e a previsibilidade”. Martin Wolf, colunista do FT e oráculo do capitalismo global, afirmou, no dia 27, em mesa-redonda transmitida pelo site do FT, que “ninguém tem a menor ideia sobre o que pode acontecer”.

Boris Johnson, líder conservador e ex-prefeito de Londres, que comandou a campanha pela saída do país da UE no seu partido, certamente não tinha. Dado como grande vencedor do referendo e sucessor do primeiro-ministro David Cameron, que renunciou após a derrota do “Remain”, Johnson não disputará a sucessão. Nigel Farage, do ultranacionalista Partido da Independência, deu sua carreira por encerrada. Os trabalhistas, que em tese poderiam beneficiar-se da vitória pírrica de seus rivais, mostraram seu despreparo rejeitando seu líder no Parlamento, Jeremy Corbyn, dias depois do Brexit.

As análises sobre as repercussões potenciais do referendo britânico em outras paragens são mera especulação. Salta à vista a semelhança entre o Brasil e a Inglaterra quanto à falta de visão de seus líderes sobre o futuro. Mas se é cedo para os perplexos ingleses entenderem as implicações de sua decisão, como afirmou Martin Wolf, soam vazios os cálculos sobre os efeitos do Brexit entre nós. Em tese, o triunfo apertado das forças antiglobalização, assegurado pelos eleitores mais idosos e pelos que vivem nas cidades do interior da Inglaterra, poderia lastrear o discurso da esquerda brasileira sobre a exaustão do domínio ideológico anglo-americano sobre a economia mundial. Mas com as lideranças que poderiam empunhar essa bandeira às voltas com a polícia e a Justiça, por conta do assalto ao Estado que propiciaram quando estiveram no poder, o debate tem parcas chances de prosperar.

Nos Estados Unidos, a semanas das convenções partidárias que escolherão os candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump não sabia bem o que era o Brexit até dias antes do referendo e celebrou a vitória do “Leave” na Escócia achando que estava na Inglaterra. Ele previu que a mensagem antiglobalização do Brexit mobilizará mais eleitores para sua causa. Mais plausível, porém, é que a forte queda das ações causada pelo veredicto antieuropeu dos britânicos e seu efeito negativo para os investimentos de atuais e futuros aposentados americanos não os animem a apostar em Trump – para não falar dos problemas de sua campanha, como falta de dinheiro e de máquina política nacional e seu temperamento incontrolável, que manterá líderes republicanos renomados longe da convenção em Cleveland. Se Trump vencer, não será por efeito do Brexit, mas do déficit de credibilidade popular de sua rival democrata, Hillary Clinton.

*É JORNALISTA E DIRETOR DO BRAZIL INTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS EM WASHINGTON

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