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Cada vez mais caro e ruim

Quando se deixa de lado a bem orquestrada autopromoção do prefeito Fernando Haddad e de seu agitado secretário de Transportes, Jilmar Tatto, que não perdem ocasião para alardear a “revolução” na mobilidade urbana que estariam promovendo, o que se constata é exatamente o contrário disso. Além de quase todas as ciclovias, um dos pilares da tal “revolução”, continuarem entregues às moscas, o único serviço de transporte coletivo de responsabilidade da Prefeitura, o de ônibus, está cada vez mais caro e ruim.

09 Janeiro 2016 | 02h55

Como mostrou reportagem do Estado, com base em dados da São Paulo Transportes (SPTrans), o aumento do subsídio a esse serviço, entre 2014 e 2015, foi de R$ 300 milhões, ou 17%. De janeiro a novembro do ano passado, as empresas concessionárias receberam R$ 2 bilhões, ante R$ 1,7 bilhão em igual período de 2014. A previsão para este ano é que o subsídio se mantenha em R$ 2 bilhões, apesar do aumento da tarifa de R$ 3,50 para R$ 3,80. Como esse aumento, de 8,57%, ficou abaixo da inflação acumulada, de 10,49%, e como os descontos e gratuidades que engordam o subsídio serão mantidos, não há razão para crer naquela previsão otimista. Ao contrário, é quase certo que o subsídio continuará a crescer.

Os paulistanos nem precisam se perguntar se vale a pena pagar tanto – os bilhões dos subsídios, custeados pelos impostos, mais a tarifa paga pelos usuários – para ter um serviço tão chinfrim. A resposta negativa é obvia. A tentativa do governo Haddad de justificar a dinheirama gasta com os ônibus não convence. Alega ele que o subsídio não redunda em ganho para as empresas concessionárias, porque serve basicamente para cobrir os custos das políticas de incentivo tarifário, tais como o passe livre estudantil, o bilhete único mensal e as gratuidades para desempregados e idosos. Isso só não seria uma balela se o subsídio não constituísse receita das empresas transportadoras.

Mesmo que o argumento proceda, ele não altera a relação custo alto/serviço ruim. Quanto ao subsídio, em toda parte os serviços de transporte coletivo o recebem e não se pode esperar que São Paulo fuja à regra. Mas isso não impede que sejam revistas essas políticas, que, tal como são aplicadas aqui, além de excessivamente onerosas, contêm claras e inaceitáveis distorções.

Por exemplo: nada justifica o passe livre para todos os estudantes. Para os de famílias carentes, que frequentam escolas públicas, sim. Mas não para os de famílias de classes média e alta, que pagam caro por escolas particulares e podem, portanto, arcar com o custo, para eles irrisório, de passagens de ônibus e de metrô. O mesmo vale para os idosos, pois a idade não empobrece as pessoas, necessária e indiscriminadamente. Não é justo que, num e noutro caso, a população assuma uma despesa para a qual seus beneficiários têm recursos de sobra.

Outro indiscutível sinal da má qualidade do serviço de ônibus é a insatisfação crescente dos paulistanos, apesar dos benefícios bancados pelo subsídio. No mesmo período em que este deu novo salto – de janeiro a novembro de 2014 e de 2015 –, o número de viagens caiu 1%, de 2,686 bilhões para 2,659 bilhões. No sistema metroferroviário – Metrô e Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) –, embora a tarifa seja a mesma, o movimento é inverso. Como assinala o especialista em transporte Sérgio Ejzenberg, em artigo publicado no Estado (6/1), entre 2013 e 2015 cresceu o número de passageiros desse sistema. Certamente porque ele tem sobre os ônibus três vantagens principais: rapidez, respeito aos horários e intervalo menor entre as composições.

Ejzenberg lembra que o número de ônibus diminuiu e, consequentemente, também o de viagens, o que faz com que o tempo de espera nos pontos aumente. E afirma com toda razão que, se Haddad tivesse construído os corredores exclusivos prometidos, eles permitiriam criar novas possibilidades de origem e destino e aumentar a velocidade média dos ônibus. Em resumo, a tal “revolução” é um embuste e o serviço de ônibus continua ruim não por qualquer fatalidade, mas por incompetência do governo.

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