Cancún entre a cruz e a caldeirinha

Não surpreenderá nem mesmo os empregados do setor da limpeza, encarregados a cada dia de retirar algumas toneladas de resíduos deixados por milhares de participantes da reunião da Convenção do Clima, em Cancún, se esta terminar sem nenhum acordo importante, apesar da gravidade da situação no mundo, que já provocou alertas até de Osama bin Laden (Associated Press, 2/10). Afinal, o próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, já disse que não espera um acordo global para este ano ("talvez em 2011"); a secretária-geral da Convenção, Christiana Figueres, deixou claro que o "business" e as divergências entre países industrializados e os demais bloqueiam as negociações; Todd Stern, o representante norte-americano, afirma que seu país não abre mão de compromissos obrigatórios de redução de emissões na China e na Índia - que não os aceitam, com apoio dos demais "emergentes", inclusive o Brasil. E não bastasse tudo isso, a crise econômica no mundo leva cada um dos 194 países participantes a agir com extrema cautela. Como chegar, nessas condições, a acordos relevantes, se as convenções da ONU exigem, para isso, consenso?

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2010 | 00h00

Não bastasse tudo isso, o malogro da agenda ambiental do presidente Barack Obama - bloqueada pelos republicanos no Congresso - está levando mesmo os países industrializados a descrer de acordos em âmbito global. Já não falta quem proponha que se tente chegar a acordos parciais no âmbito do G-8 ou do G-20, capazes de influenciar também acordos comerciais e levar à redução das emissões de gases que intensificam mudanças do clima. Até mesmo uma prorrogação do Protocolo de Kyoto (que expira em 2012) parece difícil a esta altura, embora tenha ajudado países industrializados a reduzir seu balanço de emissões e criado um mercado mundial de carbono. A Rússia (que baixou suas emissões em 33% com o processo de desindustrialização) já deixou claro que novo protocolo só com a adesão dos Estados Unidos e da China; e o Japão não quer novo protocolo.

Enquanto isso, relatório do WWF alerta que as emissões de poluentes podem superar 40 gigatoneladas em 2020 e comprometer a meta de a temperatura não aumentar mais que 2 graus Celsius; se for feito apenas o que se pensou em Copenhague, as emissões daqui a dez anos ficarão entre 47,9 e 53,6 gigatoneladas. Sir Nicholas Stern, o respeitado consultor do governo britânico, adverte que até 2030 as emissões não podem ultrapassar o nível em que estão hoje, também para não ultrapassar 2 graus. Segundo a revista Nature, citada pela New Scientist (19/9), nada menos que 750 gigatoneladas de poluentes podem ser liberadas na atmosfera até 2050 (hoje, só Estados Unidos e China, juntos, emitem 12 gigatoneladas por ano). A própria ONU (Folha de S.Paulo, 23/11) acha muito difícil que não se ultrapassem os 2 graus na temperatura. Em 2009 as emissões globais caíram 1,3% (em relação a 2008), com as reduções nos países industrializados, por causa da crise econômica. Mas aumentaram 8% na China, 6,2% na Índia. E podem voltar a crescer no balanço de 2010. Um dos números mais favoráveis é o que aponta queda de 25% nas emissões por desmatamento nesta primeira década do século 21.

Para o Brasil o panorama parece um pouco melhor. Foi, afinal, regulamentada a lei da política nacional do clima e as emissões baixaram do pico de 2,675 gigatoneladas equivalentes de dióxido de carbono (2004) para 1,775 gigatonelada (2009), segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia - ou seja, menos 33,6%, graças em grande parte à queda do desmatamento na Amazônia (a meta é reduzi-lo em 80% até 2020, juntamente com 40% no Cerrado).

Uma das áreas mais complicadas é a da emissão de metano pelo gado bovino, várias vezes já comentada neste espaço. Afirma o Financial Times (29/11) que as emissões na pecuária superam as de aviões, trens e automóveis, juntos. No mundo, seriam 1,3 bilhão de cabeças de gado bovino (além de 1 bilhão de ovelhas e 16 bilhões de frangos). Cada boi emitindo 58 quilos por ano e o metano sendo 23 vezes mais prejudicial na atmosfera que o carbono, chega-se a números astronômicos (no Brasil, 205 milhões de cabeças multiplicadas por 58 quilos/ano serão quase 12 milhões de toneladas anuais; multiplicadas por 23, darão o total de mais de 270 milhões de toneladas).

No mundo, diz aquele jornal, o consumo de carne tem crescido muito, assim como o de laticínios e ovos. Na China, quase cinco vezes em 25 anos, para chegar a 59,5 quilos anuais. Nos países industrializados, o consumo de carne está em mais de 80 quilos anuais por pessoa, embora com a tendência de deslocar-se da carne bovina para a de frangos e peixes. Nos demais países, a média está em 13,3 quilos anuais.

É um panorama muito preocupante também para o Brasil o do clima, já que o próprio Boletim do Ipea (n.º 4) registra que a temperatura por aqui pode elevar-se até 8 graus neste século. O Serviço Geológico do Brasil diz que o volume de chuvas no Distrito Federal e em Goiás caiu 6,58% entre 1974 e 2008. A seca do Rio Negro, no Amazonas, foi este ano a maior em um século.

Como se fará, em Cancún e outros fóruns, para superar questões como as da China e da Índia, que querem urbanizar e aumentar o consumo de milhões de pessoas - e pretendem usar mais carvão para gerar energia? Ou para resolver o problema de 1 bilhão de pessoas que passam fome no mundo? Ou a passividade dos países mais ricos, mergulhados em crise econômica? Mas pelo outro lado, como lembra o ex-secretário da ONU Kofi Annan, mudanças climáticas e consumo insustentável de recursos "ameaçam a sobrevivência da espécie humana". E o relatório da ONG Oxfam agora divulgado aponta 21 mil mortos por desastres climáticos em nove meses deste ano, entre centenas de milhões de atingidos e desabrigados e centenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais.

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