Carne de porco para o Japão

Com o início das exportações de carne de porco para o Japão, previsto para os próximos meses, Santa Catarina começará a auferir mais um expressivo ganho da severa política de controle sanitário de seus rebanhos, que vem mantendo há anos. Essa política já lhe rendeu a certificação internacional como único Estado brasileiro livre da febre aftosa sem necessidade de vacinação.

O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2012 | 03h06

Mesmo assim, só após longa e minuciosa fiscalização in loco das condições de operação da suinocultura catarinense e de muitas reuniões de seus técnicos com representantes do Ministério da Agricultura e do governo catarinense, o governo japonês anunciou há dias sua concordância com a certificação internacional.

Trata-se de uma etapa crucial para a abertura do mercado japonês à carne de porco originária do Brasil. Mas o processo ainda não está concluído. Como outras negociações com as autoridades japonesas, também esta exigiu paciência, informações criteriosas e muita sagacidade dos representantes brasileiros.

Em dezembro de 2007, sete meses depois de Santa Catarina ter obtido o reconhecimento pela Organização Internacional de Saúde Animal como zona livre de febre aftosa sem vacinação, dois pesquisadores japoneses vieram ao Brasil, para conhecer a situação no local. A confiabilidade do produto brasileiro estava sendo questionada por diversos importadores porque, dois anos antes, houvera um surto em Mato Grosso do Sul, com grandes perdas para os produtores do País e para as exportações.

Extenso questionário teve de ser respondido pelo governo brasileiro, com explicação detalhada e documentada do sistema produtivo e da atuação dos órgãos públicos de defesa sanitária. E os três últimos governadores de Santa Catarina estiveram em Tóquio para tratar do assunto, para se chegar à etapa atual.

A conclusão definitiva das negociações e, afinal, o início das exportações, ainda depende de algumas negociações e da aprovação, pelo governo japonês, da lista de estabelecimentos de abate que atendem às suas exigências sanitárias.

As negociações para a abertura do mercado chinês também foram longas (duraram cinco anos) e seus resultados têm sido muito modestos. Além de importar bem menos carne suína do que o Japão, pois sua produção doméstica é a maior do mundo, a China só aceita o produto fornecido por um estabelecimento brasileiro.

No caso do Japão, maior importador do mundo (793 mil toneladas em 2011, o equivalente a US$ 5,2 bilhões), as perspectivas são bem mais promissoras. "O reconhecimento do governo japonês muda o mercado brasileiro de patamar", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto.

Camargo espera que, em pouco tempo, o produto brasileiro responda por 15% das importações japonesas. Se isso ocorrer, as exportações do País poderão crescer mais de 20% e o Japão figurará entre os quatro principais destinos da carne de porco brasileira. Atualmente, os três maiores importadores (Ucrânia, Hong Kong e Rússia, pela ordem) respondem por praticamente 70% das exportações brasileiras.

No início do ano, também o governo americano aprovou a importação de carne de porco brasileira, igualmente depois de um longo processo de negociação. Mas o Brasil ainda tem problemas para exportar carne suína.

A Rússia impôs restrições à entrada de carne bovina e suína brasileira e, apesar de seguidas negociações com autoridades brasileiras, vem retardando a eliminação desses entraves. Outro país que, indiretamente, vem limitando a entrada do produto brasileiro - ao exigir que o importador exporte um valor igual ao que importou - é a Argentina, a qual o governo brasileiro dispensa tratamento preferencial, quando não privilegiado.

A abertura do mercado japonês mostra que o País não pode vacilar no rigoroso controle sanitário de seu rebanho, por meio da atuação conjunta do governo e dos produtores privados, para não acrescentar mais problemas aos que já enfrenta com diferentes parceiros comerciais.

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