Cartão vermelho para Berlusconi

Antes mesmo da contagem dos votos, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, havia perdido o referendo de domingo e segunda-feira sobre quatro leis por ele promulgadas. Ele tinha feito tudo que estava ao seu alcance para impedir que o comparecimento alcançasse os 50% necessários para validar a consulta. Mas cerca de 57% dos 50 milhões de eleitores inscritos foram às urnas e, por esmagadora maioria, repeliram a prerrogativa do chefe do governo de faltar quantas vezes quisesse a audiências judiciais, sob a alegação de "impedimento legítimo". Na prática, isso travaria os processos em que fosse réu.

, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2011 | 00h00

O privilégio era um casuísmo para deixar Berlusconi imune à fieira de acusações que pesam contra ele, a mais recente das quais é a de ter tentado comprar os favores sexuais de uma marroquina então menor de idade, conhecida como Ruby Rouba-Corações. O impropriamente chamado Cavaliere, aliás, é também acusado de abuso de poder por ter ordenado à polícia que a soltasse, alegando interesse nacional. Além de privá-lo da imunidade judicial, os eleitores baniram a energia nuclear do país, rejeitaram a privatização dos serviços de água e o aumento de suas tarifas.

No seu terceiro mandato não consecutivo, acumulando mais tempo no poder do que qualquer antecessor desde o ditador Benito Mussolini, Berlusconi é o principal político italiano em duas décadas, o homem mais rico do país - e o chefe do mais indecoroso governo do Ocidente. A sua vulgaridade rivaliza com a desmedida ambição que o levou a corromper as instituições nacionais numa escala comparável à que engendrou a Operação Mãos Limpas nos anos 1990. Ironicamente, ao remover da cena, entre outras, as velhas lideranças democratas-cristãs, a faxina abriu espaço para a sua ascensão.

Agora tudo indica que os seus dias estão contados. No fim do ano passado, ele escapou por uns poucos votos no Parlamento da moção de desconfiança que o derrubaria. Há duas semanas, já amargara um primeiro baque nas eleições municipais, a começar por Milão, sua cidade natal e baluarte político. Para não revolver a sua deplorável carreira, basta arrolar as manobras com que tentou sabotar o referendo da virada da semana. Elas valem por um manual do estilo Berlusconi de fazer política.

Ele obrigou as combalidas finanças italianas a arcar com ? 300 milhões ao impedir que a consulta coincidisse com o pleito de maio. Procurou cancelá-la, alegando que suspendera havia pouco a construção de usinas nucleares - um dos temas do referendo -, mas perdeu duas vezes na Justiça. E a TV estatal RAI praticamente baniu do noticiário o sufrágio por se realizar. Além de apostar na desinformação de uma parcela talvez decisiva do eleitorado, ele insistiu perante outros públicos na conveniência da abstenção. A maioria, afinal, não lhe deu trela - e, pela primeira vez desde 1995, houve quórum para validar um referendo.

Foi o mais claro sinal emitido pela sociedade italiana de que, passados 9 anos de sua última eleição, já não suporta o fardo de um governante entregue antes a se desviar de sucessivas acusações de abusos, fraude, evasão de divisas, estelionato e suborno, do que à defesa da economia nacional. Diferentemente dos seus vizinhos no Sul da Europa, a Itália não soçobrou. O desemprego no país é da ordem de 8%, ante mais de 20% na Espanha, e o déficit orçamentário, de 4% do PIB, é manejável. Mas os indícios de estagnação são inquietantes.

No decênio terminado em 2010, a produtividade da economia caiu 5%. Nesse período, só o Zimbábue e o Haiti cresceram menos do que a Itália. A dívida pública alcança 120% da riqueza nacional. Segundo o Banco Mundial, citado pela revista The Economist, a Itália está atrás de Belarus e da Mongólia, em matéria de clima favorável a empreendimentos, e da Indonésia e de Barbados, em termos de competitividade. O mandato de Berlusconi vai até abril de 2013, mas é duvidoso que a direitista Liga Norte, de Umberto Bossi, o seu principal parceiro, o sustente até lá. A consulta dos últimos dias foi um referendo sobre a pessoa do premiê. E o resultado, um cartão vermelho para ele.

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