Cenário de crise no ensino de graduação

O País tem hoje pouco mais de 5 milhões de estudantes de graduação, com 75% deles em instituições privadas e 25% nas públicas. Desde o início dos anos 1990 quase triplicamos a oferta de vagas e 25% dos jovens de 18 a 24 anos estão no ensino superior. A par do bem-sucedido esforço nos últimos dez anos para a expansão de vagas nas universidades federais e estaduais, o aumento da demanda nessa área tem sido atendido pelo setor privado, cujo forte ritmo de crescimento só agora dá sinais de esgotamento.

Wanderley Messias da Costa, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2010 | 00h00

Essa é mais uma das nossas características de país emergente neste mundo globalizado e competitivo, em que governos têm optado pela abertura desse tradicional reduto do poder público ao setor privado como estratégia para atender com rapidez à crescente procura por ensino de terceiro grau.

Num aspecto, entretanto, expomos inusitada singularidade que nos qualifica como interessante case internacional para análise dos especialistas no tema. Por aqui essa expansão foi tão atabalhoada que em 2008 havia 1,5 milhão de vagas ociosas no ensino superior nacional, a quase totalidade delas em instituições privadas. Dispomos de poucos estudos sobre as causas dessa anomalia, mas há sinais a observar, a exemplo da acentuada e recente queda no número de egressos do ensino médio, que reduz a massa de clientes nesse alargado mercado - e sabemos que essa é tendência que não será revertida no curto prazo.

Além disso, é preciso considerar a evasão escolar universitária, terrível mazela nacional que assola tanto instituições e cursos medíocres quanto os de reconhecida excelência (taxa média acima de 40%), combinada à escandalosa duração dos cursos nas universidades públicas, prevista em geral para quatro anos, mas que em sua maioria chega a seis ou mais. Para o âmbito específico das escolas privadas, devem-se acrescentar a frustração com a baixa (e em muitos casos baixíssima) qualidade do ensino oferecido e a impossibilidade para milhões de jovens de baixa renda de arcar com os altos custos das mensalidades. É por isso que as 500 mil bolsas de estudos concedidas pelo governo federal (ProUni) em 2009 e 2010 podem ser avaliadas pelo seu duplo papel, pois, além do inegável mérito enquanto política de inclusão social para estudantes carentes, elas funcionaram como alívio momentâneo para as dificuldades atuais do setor.

Esse diagnóstico geral, entretanto, não desvenda o núcleo duro da crise atual do ensino de graduação, que, diga-se de passagem, atinge em graus variados todos os países do mundo. Governos, universidades, empresas e amplos setores da sociedade estão engajados de algum modo em programas de reforma dos seus sistemas de educação e particularmente do ensino superior. O ponto de partida que nos põe na mesma frente de batalha é a convicção comum de que na era atual de acelerada transição econômica, cultural e tecnológica, que a todos impacta, é imprescindível que mudemos radicalmente os meios e métodos tradicionais que até aqui temos utilizado para produzir e difundir ciência e conhecimento em geral e, mais que isso, para ensinar e formar nossas crianças e nossos jovens.

O primeiro passo é reconhecermos que há uma brutal queda de qualidade no ensino superior que atinge a todos, indistintamente. Como comprovar isso? Não é difícil. Além da lastimável e imensa quantidade de jovens que, de livre iniciativa ou abatidos por dificuldades várias, desistem no início ou no meio do caminho, há outros sintomas visíveis dessa crise. São incontáveis os que se formam e não conseguem emprego, ou que trabalham sem exercer as suas profissões, ou os que, tendo obtido seus diplomas, descobrem que estes em nada contribuirão para sua ascensão profissional, ou, ainda, os que, mal tendo concluído sua graduação, correm à procura de cursos de especialização ou de pós-graduação no País ou no exterior como meio de superar as deficiências da sua formação.

Podemos também observar o que nos têm indicado as poucas, mas muito relevantes, avaliações de qualidade disponíveis, a exemplo dos exames anuais aplicados aos recém-formados dos cursos de Medicina e Direito, respectivamente pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Os resultados finais são alarmantes. Eles apontam que foram aprovados 16% dos médicos e 12% dos advogados inscritos nesses exames. As últimas avaliações do Ministério da Educação (MEC) abrangendo cursos e instituições de ensino superior do País - que incluem o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) - revelam que, com poucas exceções, os piores desempenhos são os das universidades e faculdades privadas. Na maioria desses estabelecimentos de ensino persiste uma conjunção de fatores conhecidos que bloqueia o seu desempenho: baixa qualificação do corpo docente; precariedade do acervo bibliográfico, das instalações prediais, dos equipamentos e laboratórios; salas com elevado número de alunos, currículos obsoletos, excesso de aulas expositivas e sistemas deficientes de avaliação.

Ressalte-se, entretanto, que alguns dos ingredientes desse cenário de crise estão presentes em todo o sistema e podem ser encontrados até mesmo nas universidades de ponta do País. Como sabemos, estas se beneficiam da elevada qualificação acadêmica do corpo docente, combinada à excelência em pesquisa e pós-graduação, e por isso a presunção de muitos é que esse ambiente naturalmente assegurará a qualidade dos seus cursos de graduação. Infelizmente, porém, não é isso o que temos constatado e mudanças nesse terreno não ocorrem por capilaridade ou osmose, mas a partir da intervenção conjunta e em profundidade dos governos, dos dirigentes e do corpo docente.

PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA USP, AUTOR DE CINCO LIVROS E UM DOS IDEALIZADORES DO CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA

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