Cenas antipoéticas de uma campanha

"A esquerda e a direita unidas jamais serão vencidas."

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2014 | 02h04

Nicanor Parra

Em 1972, quando ainda era moda cantar nas ruas de "Latinoamérica" que "la izquierda unida jamás será vencida", o chileno Nicanor Parra, resolveu arriscar outro slogan: "La izquierda y la derecha unidas/ jamás serán vencidas".

Prêmio Cervantes em 2011 e Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, Parra tem 99 anos (completa os 100 anos em 5 de setembro). A casa onde mora, no povoado de Las Cruces (2 mil habitantes), traz na porta a inscrição "antipoesia". O repórter Guilherme Freitas, de O Globo, esteve com ele recentemente. No ótimo relato desse encontro (publicado em 7 de junho), o jornalista lembra que há um bom tempo o autoproclamado "antipoeta" já tratou de explicar o que vem a ser essa tal de "antipoesia": "um tapa na cara do presidente da Sociedade de Escritores"; "um sacerdote que não crê em nada"; "um bailarino à beira do abismo"; "um vagabundo que ri de tudo, até da velhice e da morte".

É mais ou menos esse o espírito que assalta o leitor nestes versos (convém repeti-los): "La izquierda y la derecha unidas/ jamás serán vencidas". Há neles um humor silencioso que corrói o entorno. Podemos dizer que são um tapa na cara dos caudilhos. São, também, o militante que se equilibra à beira do túmulo das ideologias (esse abismo linguístico), ou o comunista perseguido pelas patrulhas (e pelos governos) dos comunistas.

Há uma gargalhada ácida por trás dessas palavras, mas não é tão fácil escutar a risada do (anti)poeta centenário, sobretudo porque aqui, no Brasil, o que ele escreveu como piada mortífera alguns leem como receita de aliança eleitoral. O que ele escreveu como (anti)poesia parece ter sido tomado, de modo inconsciente ou ladino, tanto faz, como o manual prático da (anti)política.

É mais ou menos assim, sob o dístico de Nicanor Parra, que evolui a momentosa campanha eleitoral. Isso não é difícil de perceber. O difícil é saber por onde começar a registrar as evidências, que são tantas.

Poderíamos apontá-las, vejamos, no PMDB, essa gigantesca ameba gelatinosa indefinida que já foi chamada de fiel da balança na ciência inexata da governabilidade e hoje atua abertamente como o infiel da balança. O PMDB é um ser que consegue avançar e recuar em todas as direções e todos os sentidos ao mesmo tempo sem que nada o tire do mesmo lugar. Se nada dá conta de movê-lo, nada será capaz de vencê-lo. Sua força emana da portentosa aptidão para a infidelidade, e é essa infidelidade que repõe algum fio de equilíbrio num jogo que, em tudo, apontaria inercialmente para a "inalternância" do poder. Se há esperança de uma disputa mais acirrada no horizonte de outubro, ela se deve a esse traço definidor do PMDB, sua infidelidade incorrigível, infidelidade ao que quer que seja, inclusive a si próprio. À infidelidade da ameba continental nós devemos a competitividade de algumas candidaturas.

Eis que, finalmente, o PMDB presta um serviço não bem à democracia, mas à temperatura da disputa, e isso pelo que tem e sempre teve de pior. Em nenhum lugar como nas entranhas do PMDB a provocação estética de Nicanor Parra se tornou lei universal da (anti)política. Ali dentro, como em nenhuma outra parte, a esquerda e a direita se uniram para não serem vencidas jamais. Uniram-se a tal ponto que você não será capaz de apontar onde começa uma e onde termina outra, isto é, você não será capaz de dizer o que é direita e o que é esquerda lá dentro. Ser PMDB é ser feito de uma matéria outra, matéria que não entra na composição dessas categorias antiquadas de direita, esquerda, ora, por favor.

O PMDB está com Aécio Neves, com Dilma Rousseff, com quem mesmo? Alguém sabe? Alguém viu? E ainda dizem que os nanicos é que são partidecos de aluguel. Se os nanicos são isso - e o pior é que são mesmo -, o PMDB é uma verdadeira corretora de imóveis, que, tudo bem, não aluga a sigla, mas empresta apoios aos mais variados locatários. E quem é diferente? Existe algum partido, nessa matéria, que seja melhor que o PMDB? Basta olhar para as agremiações que se aliam aos múltiplos, versáteis e simultâneos PMDBs que variam de palanque conforme variam as unidades federativas. Os aliados do PMDB - que são todos, é bom lembrar - por acaso são mais coerentes? Ou mais puristas? Ou mais de esquerda? Ou mais de direita? Também eles, os aliados do PMDB, acreditam que jamais serão vencidos. Afinal de contas, estão unidos (ao PMDB).

Mas, assim como corroem o entorno, assim como denunciam a política como uma antipolítica, os versos de Nicanor Parra parecem tentar promover a demolição de sua própria estrutura interior. O que há de mais perturbador nesses versos é a multiplicidade de sentidos que mora dentro deles. São sentidos que se contradizem sem se anular, que ficam lá, embora não sejam capazes de dominar, de monopolizar os versos que habitam. Podemos ler "la izquierda y la derecha unidas/ jamás serán vencidas" como um comando para que as duas se unam numa coisa só. Ao mesmo tempo, podemos lê-los como um comando oposto, como se propusessem em tom heroico que a esquerda e a direita se separem de vez e lutem, por toda a vida, uma contra a outra. "Unida", a direita enfrentaria a esquerda até o fim dos tempos e não seria vencida jamais, pois estaria bem "unida". De seu lado, a esquerda poderia ficar tranquila e inabalável, já que seria combatida duramente, mas não seria vencida jamais, pois esta também estaria "unida" em torno de seu próprio eixo.

Nesse outro sentido, os versos zombam de si mesmos, como "um vagabundo que ri de tudo". Desnudam o caráter de crença vã que há no âmago (e no ânimo) de toda militância. Quem é que garante que alguma coisa não será vencida? A união? Não. Quem garante é a crença, a crença de que a "união faz a força". Mas união com quem? Ora, e isso por acaso importa? É aí que entra o PMDB, entendeu?

EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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