Chávez aposta no medo

O caudilho Hugo Chávez insinuou que, se for derrotado na eleição presidencial de 7 de outubro, poderá haver uma guerra civil na Venezuela. Trata-se de uma prova eloquente, se é que alguém ainda precisava de uma, de que a peculiar democracia chavista é aquela em que a alternância de poder constitui um risco mortal para os venezuelanos. A julgar pela crescente militarização dos seguidores de Chávez e do clima de intimidação que antecede à votação, talvez seja prudente levar a sério a diatribe do presidente.

O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2012 | 03h07

Em cadeia nacional, Chávez afirmou que a "burguesia", isto é, a oposição, quer se eleger para acabar com os programas sociais de seu governo, e "isso levaria a uma guerra civil, porque ninguém pode imaginar que o povo ficará de braços cruzados se lhe cassarem direitos adquiridos". E então o presidente previu o cenário completo do confronto: "Começariam as perseguições contra o povo, começaria a repressão, como no passado".

Chávez caprichou no clima de medo, ao dizer que dispõe de "informações e evidências" segundo as quais o candidato da oposição, Henrique Capriles, não reconhecerá os resultados eleitorais em caso de derrota e se dirá vencedor do pleito, gerando confusão e violência no país. A teoria da conspiração chavista se completa com a "informação" segundo a qual Capriles está mancomunado "com alguns aliados de outras partes do mundo, com meios de comunicação e com algumas organizações internacionais da direita", além, é claro do governo americano.

Embora tenha encerrado seu discurso em outro tom, dizendo estar "completamente seguro" da vitória e que só resta saber por quantos votos de diferença vai ganhar, Chávez admitiu pela primeira vez nesta campanha que as coisas não vão tão bem quanto sua retórica sugere. As pesquisas de intenção de voto não servem para lançar luz em um cenário confuso. A maioria delas indica Chávez à frente de Capriles com algo entre 2 e 18 pontos porcentuais de vantagem, mas analistas observam que o desempenho chavista está estagnado. O presidente reconheceu a força da oposição: "Estamos ganhando as eleições, não digo com comodidade, mas estamos ganhando".

Uma boa vitória é crucial para que Chávez, há 14 anos no poder, aprofunde sua "revolução bolivariana", com o nada modesto objetivo de "preservar a vida no planeta e salvar a espécie humana", segundo diz seu plano de governo para o período 2013-2019. A julgar por esse documento, a ideia é transformar a Venezuela definitivamente numa Cuba, com vasto financiamento chinês e por meio de alianças com Rússia, Síria e Irã. Um dos pontos mais importantes do texto é o projeto de organizar "conselhos comunais" - isto é, organizações sociais e econômicas que não respondem aos governos locais, mas somente ao presidente Chávez - em número suficiente para a "cobertura total da população venezuelana". Isso acabaria de vez com a democracia representativa na Venezuela. Para o poder do Estado sobre os venezuelanos, o projeto chavista fala ainda em "administrar" as economias de todos os trabalhadores do país num "Fundo de Poupança Nacional da Classe Operária".

Outro aspecto relevante do plano chavista é a promessa de "fomentar e incrementar a criação dos Corpos Combatentes em todas as estruturas do Estado venezuelano". Esses Corpos Combatentes, criados em 2008, são o que Chávez chama de "o povo em armas", isto é, organizações de civis treinados e equipados para participar da "defesa do país". Eles atuam em instituições públicas, universidades e empresas estatais - e respondem diretamente a Chávez. Os Corpos Combatentes ajudam a formar os Comitês de Defesa Integral, que são semelhantes aos Comitês de Defesa da Revolução em Cuba, responsáveis pelo controle interno absoluto na ilha dos irmãos Castro. A progressiva militarização de civis venezuelanos e a intenção de utilizá-los em "todas as estruturas do Estado", como quer Chávez, deixam claro que uma eventual transferência de poder para a oposição, se um dia houver, não deverá ser mesmo nada tranquila, nem agora nem no futuro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.