Chávez vence folgadamente

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reelegeu-se no domingo passado pela terceira vez, numa das campanhas mais acirradas dos últimos tempos no país. Ainda que tenha derrotado o oposicionista Henrique Capriles Radonski por uma diferença de quase 10 pontos porcentuais, Chávez teve seu pior desempenho nas urnas. Em seu discurso da vitória, o caudilho admitiu que precisa ser "um presidente melhor", mas, após 14 anos no poder, com mais seis de mandato, com total controle sobre o Estado e sem a menor intenção de preparar um sucessor, é improvável que mude a desastrosa rota que traçou para a Venezuela.

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2012 | 03h12

Ele obteve 54,42% dos votos, ou 7,4 milhões, contra 6,1 milhões (44,97%) de Capriles. É pouco para quem contava com 10 milhões de votos e terminou a campanha com resultado pior do que o das eleições anteriores: em 1998, ele venceu com 56% dos votos; em 2000, obteve 59,5%; e em 2006 ganhou com 62,84%. Em números absolutos, Capriles obteve nada menos que 2 milhões de votos a mais do que o candidato da oposição em 2006, Manuel Rosales, enquanto a votação de Chávez ficou praticamente estagnada, embora o comparecimento às urnas no domingo tenha sido sensivelmente maior, alcançando 81%, contra 75% em 2006. Considerando-se ainda que Chávez perdeu o referendo constitucional de 2007 e teve uma vitória apenas relativa nas eleições regionais de 2008, parece haver uma erosão acentuada na votação chavista, indicando uma associação entre a "fadiga de material", natural para quem está há tanto tempo no poder, e a emergência de uma oposição com um mínimo de articulação e sob liderança forte e carismática.

Ademais, mas não menos importante, há grande incerteza sobre a doença de Chávez. Aos 58 anos, ele se recupera de duas cirurgias para extirpar um câncer cuja natureza é segredo de Estado na Venezuela. Muitos o deram como praticamente fora do poder, mas ele se diz curado e, para provar que é verdade, fez alguns comícios vistosos. No entanto, o ritmo da campanha não foi o mesmo de anos anteriores e ele resumiu sua participação, na prática, às cadeias obrigatórias de rádio e TV. Por essa razão, já se fala no "chavismo pós-Chávez" e há quem compare seu movimento ao peronismo, que sobreviveu a seu fundador, o caudilho argentino Juan Domingo Perón (1895-1974). Contudo, Chávez asfixiou as pretensões de todos aqueles que poderiam ser vistos como seus sucessores. Em suas viagens a Cuba para ser operado, por exemplo, ele nem sequer delegou o poder a seu vice, Elias Jaua. Também não está claro qual papel cabe a Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, e Nicolás Maduro, chanceler, sempre citados como possíveis substitutos, porque Chávez frequentemente os usa como peões para fomentar disputas internas e, ao final, reafirmar-se como único líder de seu movimento. Sem Chávez, portanto, o chavismo tenderia a se esgotar.

Do outro lado, Capriles, que tem apenas 40 anos, sabe que se credenciou como sucessor imediato de Chávez - no caso da morte ou incapacidade física do presidente, a Constituição venezuelana manda realizar novas eleições. Com a força obtida na campanha, Capriles será uma sombra que Chávez jamais teve. Talvez por esse motivo, quando ainda não terminava a apuração, o caudilho fez um apelo para que haja "diálogo" e para que se pare com a disseminação "do ódio e do veneno social", como se esse ódio não tivesse partido de suas próprias fileiras e de seu próprio discurso. Ao longo da campanha, Chávez chamou Capriles de "analfabeto", "porco", "nazista" e "maricas", entre outras ofensas indignas de um chefe de Estado. Fazendo seu habitual cálculo político, ele "reconheceu" o recado das urnas e disse que é preciso "responder com maior eficácia e eficiência às necessidades do nosso povo". No entanto, em se tratando de Chávez, essa deve ser a senha não para a busca do diálogo e da cooperação, e, sim, para a radicalização do "socialismo do século 21", que está transformando a Venezuela numa versão latino-americana do "farol do socialismo" - a Albânia comunista.

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