Chuva e falta de luz

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O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 03h00

Outra vez uma chuva forte, na tarde de quinta-feira passada, fez a capital amargar as consequências da incapacidade tanto do poder público quanto da AES Eletropaulo de resolver o velho problema representado pelos 17 mil quilômetros de fiação suspensa sobre ruas, avenidas e calçadas. Milhares de paulistanos sofreram prejuízos e tiveram de suportar os transtornos causados pela interrupção no fornecimento de energia elétrica, provocada pela queda de árvores sobre os fios, e a longa demora em restabelecer o serviço. E, como novas chuvas como essa estão previstas para a primavera e o verão, a população que se prepare para o pior.

O temporal deixou dois mortos e causou estragos consideráveis na fiação. O Corpo de Bombeiros registrou 153 ocorrências de quedas de árvores, que deixaram sem luz importantes áreas, em especial das zonas oeste e sul. Também o trânsito foi muito afetado, principalmente porque 45 semáforos ficaram fora de operação, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Neste caso, a responsabilidade é somente da Prefeitura, que demora a modernizar o ultrapassado e vulnerável sistema de semáforos da cidade.

Relatos de moradores dos bairros de Cidade Jardim, Pinheiros, Vila Madalena, Alto de Pinheiros, Pompeia, Lapa, Perdizes, Pacaembu, Itaim-Bibi, Vila Olímpia, Perus, Butantã, Jabaquara e Brooklin, colhidos pela reportagem do Estado, indicam que a falta de luz durou de 6 horas a 30 horas. A paralisação por tanto tempo de elevadores, interfones e portões eletrônicos – sem falar de geladeiras e congeladores – causa sérios transtornos, principalmente a doentes e idosos, e prejuízos para todos os moradores das áreas atingidas. Neste último caso, quem mais perde são os comerciantes, donos de bares e restaurantes.

Como sempre, a Prefeitura e a Eletropaulo dizem ter feito o máximo possível, culpam a natureza e, quanto ao mais, deixam entender que a responsabilidade é do outro. Em nota, a Prefeitura alega, por exemplo, que as chuvas representaram quase 50% do volume esperado para o mês na zona oeste e que no ano passado podou 15 mil árvores e removeu outras 2 mil. Ora, chuvas intensas assim não são novidade – logo, é preciso se preparar para elas – e aqueles números, por si, não querem dizer grande coisa. Embora elevados, a realidade demonstrou que ficaram aquém do necessário.

Dirigentes da Eletropaulo se comportaram da mesma forma, afirmando – como se isso fosse uma grande coisa – que 1,2 mil empregados seus foram destacados para consertar os estragos na fiação. Tanto esse número, destinado a impressionar, não era suficiente para conseguir um bom resultado, que a falta de luz durou muito. Além disso, como a situação das árvores – um grande número delas é sabidamente ruim, infestado de cupins – também lhe diz respeito, ela tinha a obrigação, tal como a Prefeitura, de se preparar melhor para enfrentar as consequências de chuvas intensas que sempre ocorrem nessa época.

A solução do problema, todos sabem, é enterrar a fiação. Mas as dificuldades jurídicas, de custo e de prazo para tal são realmente grandes. Alega-se que a Lei Municipal 14.023, que determina o enterramento de 250 km lineares de fios por ano, interfere em questão que depende de regulamentação federal. Mesmo que esse obstáculo seja superado, a Eletropaulo afirma que o trabalho custaria R$ 100 bilhões e no ritmo proposto demoraria 33 anos. A divisão desse custo – que o consumidor sozinho não suporta – é questão não resolvida e o prazo é longo demais.

Mas essas dificuldades não podem servir de pretexto para que se continue a adiar a solução de um problema com o qual uma cidade da dimensão e da importância de São Paulo não pode conviver indefinidamente. Até porque ele se agrava a cada dia. Já é tempo de o poder público – em todos os seus níveis, já que cada um tem uma parte de responsabilidade – se decidir a agir. E, enquanto não se resolve o problema, a Prefeitura e a Eletropaulo têm a obrigação de ser mais previdentes para limitar os prejuízos da população.

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