Ciência, resiliência e inclusão social

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou recentemente o documento Against the Odds - Disadvantaged Students who Succeed in School (algo como "Contrariando as Probabilidades - Estudantes em Desvantagem que têm Êxito na Escola"). Baseada na análise do desempenho dos jovens submetidos ao Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), a organização revela que estudantes em desvantagem do ponto de vista socioeconômico podem destacar-se nos estudos quando expostos a maior carga horária de educação em ciências.

Jorge Werthein, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2011 | 00h00

Segundo a OCDE, uma hora a mais de aulas regulares de ciências aumenta a probabilidade de um estudante ser resiliente, ou seja, superar obstáculos e ter bom desempenho. "Dadas as mesmas circunstâncias, políticas voltadas para esse objetivo (mais educação científica para os carentes) favorecerão a equidade nos resultados educacionais e impulsionarão a média do desempenho", diz o documento. Com o estudo a OCDE demonstra que as ciências podem ser mais um fator de inclusão social.

Em cenários de elevados índices de repetência e abandono escolar, o impacto positivo do ensino de ciências pode ser ainda maior. Em outro documento, Pisa in Focus ("Pisa em Foco"), a OCDE analisa o impacto da repetência e conclui: 1) Índices elevados de repetência podem sair caro para os países; 2) em países onde mais estudantes repetem o ano o desempenho geral tende a ser menor, e a situação social tem impacto mais forte nos resultados da aprendizagem do que nos países onde há menos estudantes repetentes - os mesmos resultados encontram-se em países onde é mais comum transferir alunos fracos ou alunos-problema; 3) países com menos opções de transferir estudantes empregam outros meios de trabalhar com alunos com dificuldade, tais como dar mais autonomia às escolas para elaborar o currículo e as avaliações.

Nesse contexto, cabe lembrar que para bem educar meninos e meninas é indispensável investir tempo e recursos humanos e materiais na formação de professores, apoiando-os no processo de aprimoramento tanto da didática quanto do conteúdo das disciplinas científicas. São os professores que têm o poder de transmitir o desafio da ciência a seus alunos.

Além de estimular o espírito investigativo, o raciocínio lógico e o pensamento científico, úteis a qualquer domínio do saber, o aprendizado de ciências abre portas para um mercado de trabalho extremamente promissor. Dezenas de carreiras - antigas e novas - estão na área de ciências, a maioria delas sob forte demanda de profissionais qualificados, em especial nos países em desenvolvimento.

Resultado da Sessão de Alto Nível do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc), realizada em Genebra na primeira semana de julho, a declaração ministerial Implementando os Compromissos e Metas Acordados sobre Educação, em seu 9.º item (subitem h), compromete-se a "fortalecer as oportunidades para estudantes aproveitarem e contribuírem para a inovação científica e tecnológica e desenvolver estratégias para ampliar a participação de meninas e mulheres na educação científica e tecnológica". Trata-se, simultaneamente, de mais um compromisso e alerta para todos os países, especialmente os menos desenvolvidos e em desenvolvimento, sobre a relevância do papel da educação com foco nas ciências e na tecnologia.

Cabe chamar a atenção, no documento do Ecosoc, para a menção a "oportunidades", "estratégias", "meninas e mulheres". Em consonância com o que defende a OCDE, os ministros reunidos em Genebra enxergam a educação em ciências como oportunidade tanto de usufruir quanto de promover o desenvolvimento científico-tecnológico. Para isso julgam importante contar com a participação de meninas e mulheres e as incluem no texto porque reconhecem o fato de que, em muitos países, há preconceito e discriminação baseados em gênero, mesmo no âmbito educacional. Embora o segmento populacional, nesse caso, seja específico (mulheres), a lógica por trás do compromisso dos ministros é a mesma da OCDE: inclusão social por meio da educação em geral e da formação científico-tecnológica em particular.

Como se sabe, numa sociedade altamente informatizada e mediatizada, ser e sentir-se cidadão integrado depende, em grande parte, do domínio de códigos científico-tecnológicos, seja para ingressar e manter-se no mercado de trabalho, seja para administrar a vida pessoal. A própria interpretação dos fatos à volta demanda esse tipo de conhecimento. Portanto, a formação precária em ciências e tecnologia - ou, em casos extremos, a ausência dessa formação - implica dois níveis de exclusão social: um mais visível, que envolve dificuldades de inserção e ascensão no mundo laboral, e outro mais sutil, relacionado à capacidade de tomar decisões individuais conscientes, assim como de participar de importantes processos decisórios coletivos.

Portanto, quando a OCDE expressa a relevância de ampliar a dedicação dos estudantes à educação científica como forma de estimulá-los e torná-los mais resilientes, e o Ecosoc promove encontro ministerial no qual autoridades de alta patente se comprometem a elevar a qualidade da educação, inclusive e especialmente a científico-tecnológica, e incluir no processo meninas e mulheres, quando fatos como esses coincidem, torna-se ainda mais evidente a relação entre educação, ciência e inclusão social. Trata-se de visão ao mesmo tempo resultante e promotora da sociedade do conhecimento. É uma espécie de círculo virtuoso no qual o saber exige cada vez mais saber - desde que todos possam dele participar, ou não seria um círculo virtuoso.

DOUTOR EM EDUCAÇÃO PELA UNIVERSIDADE STANFORD (EUA), VICE-PRESIDENTE DA SANGARI BRASIL E DO INSTITUTO SANGARI, FOI REPRESENTANTE DA UNESCO NO BRASIL

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