Clima – acordos não faltam, só soluções

Para atingir as metas é preciso investir só nos países 'emergentes' US$ 100 bilhões/ano

WASHINGTON NOVAES*, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2016 | 04h00

Durante a reunião em Marrocos da Convenção do Clima – ainda em andamento –, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas divulgou relatório que mostra os impactos que o País sofrerá com essas mudanças. Serão muitos. Mas ainda são escassos os esforços para mitigá-los. Principalmente porque entre os problemas estão a redução da potabilidade da água, mais consumo de energia, maior risco de catástrofes naturais nas cidades, aumento de doenças e problemas para os sistemas de saúde.

Até 2020 o Brasil terá 90% de sua população nas cidades. E precisará de mais energia – cujo consumo está em 70% nas cidades, onde se produzem 40% das emissões de gases do efeito estufa. Por isso será necessário um esforço ainda maior nas áreas urbanas, que precisarão adaptar-se ao clima. Mas, como lembra a cientista Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do Programa Brasileiro de Mudanças Climáticas, são muito poucos ainda os inventários de gases-estufa. Da mesma forma os estudos em outras áreas, como os relacionados com a potabilidade da água e o consumo de energia – projetado para aumentar 8% além do que foi previsto para 2030, ainda mais considerando que poderá ser menor a geração por hidrelétricas. Da mesma forma também, os estudos sobre danos nas cidades com inundações, desabamentos, etc. – 37,1% dos municípios brasileiros sofreram alagamentos entre 2008 e 2012, 895 foram atingidos por desabamentos. As alterações climáticas têm provocado sobrecarga nos sistemas de saúde e no trabalho do pessoal da área. Mas o que está à vista é pouco.

Como relatou este jornal (27/10), o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia, com crescimento de 3,5% nas emissões de gases-estufa, comparados com as de 2014, segundo o Observatório do Clima, é problema muito preocupante. E no 1,927 bilhão de toneladas equivalentes emitidas pelo Brasil está um dos problemas mais graves na área de mudanças do clima (em 2014 foram 1,861 bilhão de toneladas). A maior taxa de emissão fica com o setor de mudanças no uso do solo, com a agropecuária respondendo por 69% das emissões de gases-estufa no País, diz o Observatório do Clima. Nesses números estão incluídos poluentes emitidos no processo digestivo dos rebanhos, o uso de fertilizantes e o desmatamento. Gases gerados pelo uso da energia contribuem mais que o desmatamento.

No mês de outubro ganhou muito destaque na comunicação o texto da Medida Provisória 735 (para o setor elétrico), que prevê até um programa para modernização e criação de novas usinas termoelétricas movidas a carvão, altamente poluentes – já debaixo de fogo de vários setores da sociedade.

O mês de novembro marcou também a entrada em vigor do chamado Acordo de Paris, com 197 países signatários que querem limitar a 2 graus o aumento da temperatura do planeta até 2100; se possível, baixar ainda mais, para 1,5 grau – para isso o corte adicional terá de ser feito até 2030. Os esforços aí terão de concentrar-se na agropecuária, que responde por 69% das emissões de gases do efeito estufa e tem agentes dispersos na área e resistentes; 11% cabem ao setor de transportes e 9% à indústria (metalurgia, principalmente). A agricultura e o gado já emitiram 1,36 bilhão de toneladas de poluidores em 2016.

O ano de 2015 foi o mais quente na história da Terra, com os níveis de concentração de poluentes ultrapassando pela primeira vez o nível de 400 partes por milhão (ppm). E 2016 baterá o recorde. Por essa e outras razões, os investimentos em eficiência energética atingiram US$ 221 bilhões e subiram 6% no ano passado. Para atingir as metas desejadas serão necessários investimentos de US$ 100 bilhões por ano só nos países “emergentes”. No entanto, ainda que se cumpram todas as metas, muitos cientistas dizem que chegaremos ao final deste século com aumentos de temperaturas entre de 3,9 e 5,4 graus.

Mesmo admitindo, entretanto, que as metas de redução de emissões sejam cumpridas, são muitos os cientistas que dizem não serem elas suficientes – e mesmo que decisões para o longo prazo estejam sendo tomadas por governos, indústrias e setor financeiro (O Globo, novembro): “Mais de 400 empresas globais já aderiram à agenda do desmatamento zero até 2020 na sua cadeia de valor”. São grandes também os avanços na área de transportes, que caminha rapidamente para a eletrificação e automação de veículos. E o BNDES anunciou que não mais financiará usinas térmicas a carvão. Ainda mais quando o desmatamento atingiu o maior nível nos últimos quatro anos.

Teme-se o que possa vir a refletir por aqui no tocante ao comportamento dos Estados Unidos, uma vez que o presidente eleito, Donald Trump, deixou claro em sua campanha eleitoral que não pretende diminuir a dependência de seu país dos combustíveis fósseis. E até cancelaria a assinatura norte-americana nos acordos do clima. Para completar, regras internacionais acordadas preveem vários passos preliminares que ainda terão de ser acertados. E será preciso dispor de US$ 100 bilhões por ano para que países com menos recursos possam cumprir as regras. Diplomatas lembram que o Protocolo de Kyoto, nessa mesma área, levou oito anos para ter efeitos práticos.

De qualquer forma, muitas instituições católicas já estão retirando investimentos da área de combustíveis fósseis; 400 já aderiram à campanha (nãofrackingBrasil, 2/10); 200 países fecharam acordo para reduzir emissões de gases, inclusive em geladeiras e aparelhos de ar-condicionado.

Mas nem tudo é pacífico. Críticos da “economia verde” asseguram que os métodos utilizados para evitar as emissões não têm contido a devastação de florestas nem a poluição: “Os caminhos estão sendo traçados pelo mercado, e não pelos cidadãos”.

Por onde iremos?

* WASHINGTON NOVAES É JORNALISTA/E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR

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