Clima no banco dos réus, até mesmo no Brasil

As emissões brasileiras de CO2 cresceram 8,9% em 2016, comparadas com as do ano anterior

*Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 03h03

A realização de mais uma conferência mundial do clima, em Bonn, provocou e ainda provoca na comunicação uma catadupa de informações sobre graves problemas nessa área – a começar pelo local da conferência, que deveria ser Fiji, no Pacífico, considerado impróprio exatamente por questões decorrentes de clima e problemas correlatos. Uma das questões em jogo é os países não conseguirem, com suas emissões de poluentes da atmosfera, avançar em direção a limitar o aquecimento da Terra a 2 graus Celsius, se possível 1,5 grau (Estado, 6/11). A Organização Meteorológica Mundial diz que de janeiro a setembro deste ano os termômetros ficaram 0,5 grau acima e se caminha para 3 graus. E 2017 deverá terminar como o ano mais quente (excluídos os anos com impacto de El Niño, como 2015 e 2016), 0,5 grau acima da média de 1981 a 2010, com elevação do nível do mar e a acidificação dos oceanos (Agência Estado, 28/11).

Em outubro, numa reunião em Ruanda, chegara-se a um acordo parcial de 200 países (O Popular, 16/10) para baixar as emissões de hidrofluorcarbonetos de geladeiras e aparelhos de ar-condicionado, até 10 mil vezes mais impactantes que o dióxido de carbono (CO2)– mas começando com uma redução de 10% até 2019, para chegar a 85% em 2036 (o grupo no qual se incluirá o Brasil deverá atingir 85% até 2045).

As emissões totais brasileiras em 2016, de 2.278 bilhões de toneladas de CO2, corresponderam a cerca de 3,9% do total mundial; comparadas com as do ano anterior, cresceram 8,9%, contribuindo para o maior salto desde 2004 (Plurale, 26/10). Um dos crescimentos mais fortes foi o do desmatamento na Amazônia, com 22%, ou 218 milhões de toneladas de CO2 mais que em 2015. O agronegócio respondeu por emissões de 1,6 bilhão de toneladas (mais que o Japão). Isso tudo quer dizer que a situação brasileira não é nada confortável no panorama mundial e exigirá esforços redobrados em áreas resistentes.

Stephen Hawking, físico britânico conceituado (Instituto Humanitas Unisinos, 5/7), avança posições alarmantes. “As ações do presidente Donald Trump (entre elas, o abandono do Acordo Climático de Paris) podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la num planeta igual a Vênus, com temperatura de 250 graus Celsius e chuva de ácido sulfúrico”, disse ele na Universidade de Cambridge, afirmando que “o aquecimento global vai se tornar irreversível”.

Seu tom aparentemente alarmista foi acompanhado pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, num pronunciamento em Washington (28/9): “O clima do nosso mundo está mudando, com efeitos devastadores para a saúde (...). As perdas econômicas desses desastres serão astronômicas, principalmente nos países insulares”.

O climatologista brasileiro Paulo Artaxo é mais otimista, embora aponte fatores negativos muito preocupantes, como o desmatamento na Amazônia. Mesmo com a retirada dos Estados Unidos do Acordo do Clima, já que Estados norte-americanos como Massachusetts e Califórnia se comprometeram a manter os compromissos acordados em Paris. China e Europa comprometeram-se até a reduzir ainda mais suas emissões. Na visão de Artaxo, os cidadãos norte-americanos estão “profundamente divididos – como revelaria o fato de 60% dos cidadãos não aprovarem o governo Trump. Contra eles estão setores conservadores, principalmente em Ohio e Virgínia, assim como na indústria automobilística. Já o polo tecnológico da Califórnia está a favor das mudanças.

Na opinião do climatologista brasileiro, o futuro caminha para um movimento global de redução de emissões de gases estufa. Lembra que recentemente a Suécia aprovou legislação que prevê que o país até 2040 estará livre da emissão de CO2. Dinamarca e Noruega caminham na mesma direção. Na contramão estão setores ligados à produção de energia pela queima de carvão, assim como a siderurgia e parte da indústria automobilística.

O chefe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em relatório recente (outubro, na conferência de Minamata), destacou que o problema da poluição no mundo é grave, mas tem caminhos para ser enfrentado: 1) pacto global que torne sua prevenção uma prioridade; 2) fortalecer a governança ambiental em todos os níveis; 3) promover a produção e o consumo sustentáveis, pela melhora na eficiência de recursos e mudanças nos modos de vida; 4) dar prioridade ao gerenciamento e à redução do desperdício; 5) estabelecer parcerias para desenvolver soluções e investir em produção e consumo mais limpos (6/10).

Propõe ele também 50 ações concretas para reduzir a poluição. Cerca de 19 milhões de mortes prematuras se contam a cada ano, observa, por causa da forma como usam seus recursos naturais e afetam o meio ambiente nas ações para produzir e consumir. Só na China, a poluição das fábricas mata mais de 100 mil pessoas por ano. E a poluição, diz a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), também contribui para perdas de bilhões de toneladas de solo por ano. De qualquer forma, o Brasil já é o país em 11.º lugar no número absoluto de mortes atribuíveis à poluição (102 mil em 2015) e maior proporção de mortes atribuíveis a esse fator (7,49%).

Adverte o Fundo Monetário Internacional (FMI) no estudo Perspectivas Econômicas Globais: países pobres perderão 10% do produto interno bruto per capita com as mudanças do clima (28/9). Mesmo países como os Estados Unidos perderam US$ 350 bilhões em uma década. E a população mundial, hoje em 7,6 bilhões de pessoas, chegará a 8,6 bilhões em 2030, a 9,8 bilhões em 2050 e a 11,2 bilhões em 2.100, segundo a ONU.

Seria ainda possível falar em outras causas associadas, como as que afetam os manguezais brasileiros e levaram à perda de 20% de sua área, ou à perda de 50% no Cerrado. Mas a relação parece infindável.

*Jornalista. e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

 

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