Combustível para o PIB global

A redução dos preços do petróleo poderá resultar em maior crescimento da economia mundial nos próximos dois anos, segundo estudo assinado por dois economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Haverá um impulso a mais para a superação dos efeitos remanescentes da crise, com benefícios principalmente para os importadores líquidos de combustíveis. Em 2015 o produto bruto global poderá ser de 0,3% a 0,7% maior do que seria sem baixa das cotações. Em 2016 o ganho extra poderá ficar entre 0,4% e 0,8%. Não se trata, no entanto, de novas projeções de crescimento, porque uma revisão ampla do cenário envolveria a consideração de vários fatores. Trata-se apenas de simulações baseadas nas condições prováveis do mercado de petróleo, avisam os autores, o economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard, e o responsável pelas pesquisas na área de commodities, Rabah Arezki.

O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2014 | 02h02

As últimas estimativas gerais de crescimento foram divulgadas pelo FMI em outubro. As projeções indicaram expansão global de 3,3% em 2014 e 3,8% em 2015. Para os emergentes, 4,4% e 5%. Para o Brasil, 0,3% e 1,4%. Uma atualização dos números deverá sair em janeiro.

As simulações, no entanto, embora limitadas em método e em propósitos, ajudam a estimar os efeitos da alteração nos preços internacionais de um dos insumos mais importantes.

Os preços do petróleo caíram cerca de 50% desde junho e aproximadamente 40% a partir de setembro. A demanda em queda, consequência da atividade mais fraca em mercados importantes, pode explicar em parte essa evolução, mas a causa principal, segundo os autores, deve ter sido mesmo a alteração no quadro da oferta. A extração cresceu de forma inesperada em alguns países, como na Líbia, mas a reação dos mercados foi lenta. A decisão do governo saudita de manter a produção, mesmo com os preços em queda, reforçou a tendência de baixa. As condições da oferta, segundo os autores, explicam 60% da queda de preços.

Nas duas simulações as mudanças na oferta ocasionam 60% da alteração nos preços futuros, mas na segunda esse fator perde importância mais velozmente e deixa de afetar o mercado em 2019. Disso resultam as diferenças nos efeitos estimados sobre o crescimento do produto global.

Preços menores afetarão os países importadores de várias formas, favorecendo sua balança comercial, diminuindo seus custos de produção e deixando aos consumidores maior renda disponível para gastar. Os efeitos para os exportadores poderão variar de um para outro país, mas, de modo geral, haverá impacto nas contas externas, com menor receita de exportações, e nas contas públicas.

O efeito fiscal será maior naqueles países mais dependentes do petróleo para a alimentação do Tesouro. A renda gerada pelo petróleo tem garantido 75% da receita fiscal de Angola, da República do Congo e da Guiné Equatorial, 30% da receita orçamentária do Equador e 47% da venezuelana.

As maiores oportunidades de crescimento, se os preços do petróleo permanecerem baixos, serão para os países com maior excedente de capacidade e com uso mais intensivo de energia em suas atividades.

Não há, no estudo, considerações especiais a respeito do Brasil. No comércio exterior, o País será ao mesmo tempo beneficiado pela redução dos preços do petróleo e prejudicado pela baixa das cotações de outros produtos básicos, como minério de ferro e alimentos. O fortalecimento das contas externas continuará dependendo principalmente do aumento geral da eficiência econômica e do poder de competição da indústria. Sem isso, nem haverá como aproveitar alguma expansão do comércio internacional favorecida pelos preços do petróleo.

As pressões inflacionárias serão provavelmente menores, mas ganhos duradouros, nessa área, só serão possíveis com a melhora das contas públicas e com uma administração mais rigorosa da demanda. Não ha verá folga, em 2015, para afrouxamento da política monetária. Os grandes problemas da economia brasileira são de origem nacional. Esquecer esse detalhe será um erro desastroso.

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