Como gado

A imagem publicada na primeira página deste jornal, no dia 8/4, não deixa dúvida: os passageiros do Metrô de São Paulo, nos horários de pico, são tratados como gado. São milhares de pessoas amontoadas à porta da Estação Corinthians-Itaquera, rumando em passo de manada para as catracas de acesso, um dos tantos obstáculos que esses usuários têm de superar para conseguir chegar a seu destino - sabendo que a volta com certeza será pior. O terrível - e inusitado - da situação não é propriamente o tumulto, ao qual o paulistano, infelizmente, já parece habituado, e sim o fato de que esses passageiros levam mais de meia hora apenas para conseguir entrar na estação, de tão lotada que está. E isso acontece todos os dias, de segunda a sexta-feira, e não apenas na Estação Corinthians-Itaquera. É, pois, um instantâneo fotográfico da falência do sistema de transporte público em São Paulo.

O Estado de S.Paulo

11 Abril 2013 | 02h10

Não se espera que uma cidade com mais de 11 milhões de habitantes tenha um serviço de transporte impecável, ainda mais numa metrópole cuja marca é o crescimento desordenado. Outras grandes cidades do mundo enfrentam problemas nesse setor, pois quase sempre há muito mais passageiros do que o sistema suporta, por mais avançado que seja. Mas São Paulo vem se destacando por um atraso incompatível com seu tamanho e sua riqueza. Os investimentos até estão sendo feitos, com a abertura de novas linhas e a ampliação das existentes, mas o ritmo é insuficiente para acompanhar a demanda.

O número de passageiros do Metrô cresceu cerca de 70% entre 2010 e 2012, passando de 2,7 milhões para 4,6 milhões por dia. A Linha 3-Vermelha, à qual pertence a Estação Corinthians-Itaquera, está saturada há mais de cinco anos, mas o quadro ficou insuportável depois que começou a integração com a nova Linha 4-Amarela.

A situação da multidão que se aglomera na porta da Estação Corinthians-Itaquera piora quando chove, e então o mínimo de ordem na entrada dá lugar à disputa corpo a corpo para ver quem consegue um lugar protegido. O Metrô diz que fará licitação para providenciar uma cobertura no local - ou seja, construirá um "puxadinho" na estação. Certamente haverá menos desconforto para os passageiros, mas a solução, como tem sido regra no Metrô, será apenas paliativa.

O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo, Júlio Semeghini, garantiu que haverá melhora sensível do Metrô até a Copa de 2014 - considerando-se que a Corinthians-Itaquera será a estação que dará acesso ao Itaquerão, estádio onde haverá jogos do torneio. Quando se trata de Metrô, porém, as promessas vazias são tão antigas quanto o próprio sistema. O projeto original, de 1968, previa 75 estações - 8 a mais do que as existentes hoje. O prazo inicial para concluir as quatro linhas planejadas era 1987, com 66,2 quilômetros, mas esse tamanho só foi atingido 20 anos mais tarde. Na década de 60, as autoridades diziam que era necessário construir, até 1990, uma malha de linhas com um total de 360 quilômetros. Hoje, com apenas 74 quilômetros de Metrô para uma área de 1.523 quilômetros quadrados, o atual sistema paulistano fica aquém do sistema de cidades muito menores, como Santiago do Chile, que tem 103 quilômetros de metrô para 640 quilômetros quadrados.

Graças a esse atraso, aos enormes custos envolvidos e à natural demora na construção das linhas, a ampliação do Metrô, por mais investimentos que receba, dificilmente conseguirá acompanhar a demanda num futuro previsível. A solução, mais rápida e barata, seria apostar na melhoria do sistema de ônibus, meio de transporte utilizado por mais da metade dos passageiros da cidade. No entanto, como a construção de corredores de ônibus e a racionalização das linhas também estão na lista das eternas promessas não cumpridas, resta torcer para que a Copa do Mundo, à qual as autoridades se referem sempre que anunciam o paraíso na Terra, tenha mesmo esse poder mágico de, sabe-se lá como, acabar com o intolerável drama diário em que se transformou o transporte coletivo em São Paulo.

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