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Confiança, fator crítico

Confiança é hoje o mais escasso fator de produção da economia brasileira. Não adiantará o governo gastar mais e distribuir mais estímulos enquanto a insegurança barrar as iniciativas de investidores, produtores e consumidores. Em fevereiro voltaram a cair os índices de confiança da indústria e do setor de serviços, ambos medidos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). No caso da indústria, o indicador das expectativas apurado em fevereiro, de 72,6, é 3,6 pontos mais baixo que o de dezembro de 2008, quando o País afundava na recessão provocada pelo estouro da bolha financeira do mundo rico. O desempenho do setor industrial tem sido o pior da economia brasileira desde 2011, começo do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Mas a crise made in Brazil acabou chegando aos serviços e no mês passado a sondagem apontou redução da confiança em 9 das 13 atividades cobertas pela pesquisa.

01 Março 2016 | 02h55

Sondagens oficiais também continuam mostrando a piora das expectativas. Economistas do setor financeiro e de consultorias voltaram no fim do mês a reduzir suas projeções de crescimento econômico e, de modo especial, de crescimento da indústria. O Produto Interno Bruto (PIB) deverá encolher 3,45% neste ano, segundo a mediana das projeções coletadas pelo Banco Central (BC), na pesquisa Focus divulgada ontem. A pesquisa reúne avaliações de cerca de cem instituições financeiras e consultorias.

Quatro semanas antes, a previsão era de um recuo de 3,01%. No começo do ano já se apostava no prosseguimento da recessão, mas o número apontado era -2,95%. Em relação ao próximo ano há pouco entusiasmo. A mediana das projeções já foi maior e agora aponta um crescimento de apenas 0,50% em 2017.

Os números da pesquisa Focus para a indústria são especialmente ruins: contração de 4,50% em 2016 e expansão de apenas 0,80% no próximo ano. As duas projeções – para 2016 e 2017 – vêm piorando seguidamente. Há quatro semanas, o recuo previsto para este ano ainda era de 3,80% e o crescimento estimado para o ano seguinte, de 1,50%.

O Índice de Confiança da Indústria, medido pela FGV e baseado em respostas de 1.101 empresas, tem oscilado, mas com tendência de queda predominante. O indicador caiu desde maio de 2010, quando estava em 116,4, até agosto de 2012. Recuperou-se modestamente e voltou a declinar depois de março de 2013. Chegou a 74,7 em fevereiro deste ano, ficando 11,6 pontos abaixo do nível de um ano antes.

Seus componentes, o Índice de Situação Atual e o de Expectativas, ficaram em 77,1 e 72,6 pontos. Os dirigentes do setor, já muito insatisfeitos com as condições presentes de sua atividade, ainda esperam uma piora. Índices acima de 100 correspondem a otimismo. Os números entraram no território do pessimismo no terceiro trimestre de 2013 e a partir daí caíram quase seguidamente. Houve alguma oscilação em 2015 e no começo de 2016, mas sempre em níveis muito baixos. A deterioração das expectativas envolve tanto a produção quanto o volume de negócios e o emprego.

O Índice de Confiança do Setor de Serviços, de 68,8 em fevereiro, ficou 12,6 pontos abaixo do de um ano antes. Depois de pequena melhora em janeiro o pessimismo voltou a predominar. No caso dos serviços, a expectativa (69,8) é ligeiramente melhor que a avaliação do quadro atual (68,4), mas os dois indicadores estão muito abaixo da linha da estabilidade (100).

A disposição das famílias é um componente essencial desse quadro. O Índice Nacional de Expectativa do Consumidor, calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ficou em 98,7 pontos, dentro da faixa de oscilação (96 a 99) observada a partir de abril do ano anterior. O humor das pessoas tem sido especialmente afetado, segundo a pesquisa, pelas perspectivas de desemprego, inflação e renda pessoal. Para 74% a inflação deve subir nos próximos seis meses. Para 18% a alta de preços deve ser igual. Oito por cento apostam em queda. Nem todos são pessimistas.

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