Conversas ao volante

O uso do celular ao volante é a quarta infração mais cometida pelos paulistanos no trânsito. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) emitiu, no ano passado, 1,6 mil multas diárias a motoristas que falam, digitam mensagens ou acompanham a internet pelos celulares e smartphones. Não há dados nacionais sobre o uso do celular ao dirigir, mas o quadro desenhado pela CET em São Paulo é uma boa amostra do comportamento do motorista nas grandes e médias cidades. Pelas normas de trânsito, quem conversa ao celular, mesmo com fone de ouvido ou pelo sistema de viva-voz, pode ser multado em R$ 85,13 e somar quatro pontos na carteira de habilitação. Num país onde há mais de um telefone móvel por habitante e pelo qual circula uma frota aproximada de 70 milhões de veículos, o hábito de usar o celular ao volante deve ser severamente combatido. Segundo especialistas, a prática eleva em 400% os riscos de acidentes.

O Estado de S.Paulo

16 Junho 2012 | 03h05

Como parte do Pacto Nacional pela Redução de Acidentes no Trânsito, o Ministério das Cidades, em parceria com o Denatran, criou dois aplicativos para celulares que ajudam o motorista a não transgredir as leis. Um deles, o Onde Tem Táxi Aqui, facilita a obediência à Lei Seca, indicando os pontos e telefones de contato dos taxistas mais próximos de onde se encontra a pessoa que ingeriu álcool.

O Mãos no Volante é outra ferramenta que bloqueia as chamadas para celular enquanto o usuário estiver dirigindo e envia uma mensagem para quem ligou: "Estou dirigindo. Ligo mais tarde". O aplicativo está disponível para aparelhos com o sistema Android e o Ministério procura parceria com outras plataformas. Desde fevereiro, quando passou a ser oferecido nas lojas virtuais, o programa acumula mais de 20 mil downloads. Motoristas de outros países estão usando o aplicativo. A meta do Ministério é chegar a pelo menos 85% dos telefones do tipo smartphone.

É a tecnologia combatendo os riscos criados pelas próprias inovações que mudam hábitos e trazem ameaça à segurança. A ideia é bem-vinda, mas os órgãos responsáveis pelo trânsito precisam investir muito mais na divulgação dessas ferramentas. Só assim poderão utilizá-las no cumprimento do pacto firmado com a Organização Mundial da Saúde (OMS) para fazer desta a Década de Ações para a Segurança no Trânsito, reduzindo em até 50% as mortes em acidentes nos próximos dez anos. De acordo com estimativas da OMS, 1,3 milhão de pessoas morrem a cada ano em acidentes de trânsito em todo o mundo.

Conforme dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), o motorista leva até quatro segundos para pegar o telefone e mais cinco para digitar um número. Se estiver trafegando a 50 quilômetros por hora, percorrerá 125 metros distraído. A falta de atenção perdura por mais algum tempo após o aparelho ser desligado, porque o motorista se mantém atento àquilo que foi discutido na conversa. Uma pesquisa da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, concluiu que motoristas distraídos pelo celular demoram mais até do que os alcoolizados para reagir diante de um imprevisto. O tempo de reação de quem envia torpedos é retardado em 35%, enquanto o atraso provocado pelo álcool é de 12%.

Dados do Departamento de Trânsito americano mostram que, nos Estados Unidos, 77% dos motoristas admitiram já ter usado o celular ao volante e, segundo estimativas do órgão, mais de 5,8 mil pessoas morreram e 500 mil ficaram feridas em acidentes provocados por distrações - destas, 12% estavam conversando pelo celular.

A massificação dos tablets e smartphones tem colaborado muito para o crescimento do setor de aplicativos para equipamentos móveis no Brasil. Multinacionais têm vindo para cá, atraídas pelo potencial do País. Aplicativos que funcionam como sensor e preveem colisões com veículos à frente e alertam sobre os perigos de aproximações repentinas já estão no mercado. A união entre o governo e essas empresas pode ser muito importante no combate à violência no trânsito.

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