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Copa e desalento

Miguel Reale Júnior - O Estado de S.Paulo

07 Junho 2014 | 02h 04

Recordo-me do entusiasmo vivido, quando cursava o terceiro ano ginasial, durante a Copa de 1958, na Suécia. Já havia álbuns de jogadores, eu e meus colegas colecionávamos figurinhas com avidez. Mas o jogo era acompanhado apenas pelo rádio, com possibilidade de se verem com atraso na televisão algumas cenas do confronto de dias antes.

Idêntico entusiasmo foi vivenciado na Copa de 1962, no Chile, com a preocupação diante da contusão de Pelé, substituído por Amarildo. Decepções aconteceram, especialmente diante das intensas expectativas com a seleção treinada por Telê Santana, que tinha Sócrates como sua principal atração, na Copa de 1982, na Espanha.

Assim se seguiram as Copas, mas sempre com o envolvimento positivo da população brasileira em favor do escrete canarinho. O que se destacava era a identificação de nosso povo com sua seleção, numa torcida que refletia o orgulho de nosso país sentido por todos, homens, mulheres e crianças.

Esse espírito contrasta, contudo, com o desalento que se vem observando às vésperas do grande torneio. O que está a suceder e por quê? Irá, no decorrer da competição, modificar-se o clima de desânimo que hoje predomina, longe das expectativas de alegria imagináveis pelo fato de estarmos a recepcionar em nossa terra o grande evento futebolístico?

Há, sem dúvida, uma atmosfera global de insegurança que conduz à angústia. Mas esta é agravada no Brasil. Na era digital universal, como diz Zygmunt Bauman, a paúra dissemina-se, espalha-se horizontalmente, e se comunicam as desgraças rapidamente na sociedade dita líquida, pois sem alicerces, sem terreno sólido, sem formas, numa fluidez geradora da sensação desagradável de impotência diante do futuro. Como diz Marc Augé, antes tinha-se medo da morte, agora se tem da vida, por se reconhecer não haver controle sobre o que quer que seja. Viver passou a constituir a adoção de modos de ser efêmeros difundidos por celebridades vazias, com o que cada qual se despersonaliza.

Fragiliza-se não só o Estado-nação no mundo globalizado, mas principalmente os órgãos intermediários, como a família, a escola, a igreja, o clube, nos quais se vivia a solidariedade, com o preço de estar sob o olhar dos demais, porém com o benefício da troca de experiências, do compartilhamento de dúvidas e angústias a viva voz, olho no olho.

Há também, por consequência, uma crise da democracia representativa nos países centrais, com o surgimento de forças decisivas e determinantes dos grandes conglomerados do comércio internacional lícito, em especial com redes como Facebook ou enciclopédias do tipo Google, além das potentes organizações ilícitas, que traficam drogas e armas.

As redes sociais, todavia, instalam uma comunicação que, curiosamente, isola, pois a sinceridade é camuflada pela exposição prevalecente do Mundo das Maravilhas, transformando-se o universo numa grande Academia do Elogio Mútuo. Passa-se, nessa solidão digital, a ser dependente dos meios eletrônicos - outro dia, após maravilhoso casamento em jardins de casa secular em Verona, uma moça brasileira ao meu lado, finda a cerimônia, abriu a bolsa e suspirou fundo, dizendo: "Que saudades do meu iPhone".

A esse quadro de angústia difusa por coisa nenhuma se soma a indicação de males distantes, mas identificáveis: a possibilidade do desastre ecológico, o terrorismo, que nos faz concordar sem pestanejar em ter nossa bagagem visualizada no raio X dos aeroportos, os desatinos que matam jovens a tiros nos EUA ou na Noruega, noticiados como se ocorressem na casa vizinha.

Mas o quadro brasileiro acentua ainda mais a desesperança: a violência urbana, que nos faz temer o assalto a cada semáforo vermelho, certos da impotência policial que descobre apenas 2% dos roubos à mão armada e garante a impunidade; a ausência de políticas sociais de inclusão cultural e de socialidade. E nossa descrença se aprofunda ao verificarmos terem os donos do poder se assenhoreado da administração pública, como sucedeu na Petrobrás, instituindo a corrupção como forma de governar, para depois montarem investigações de "faz de conta", tratando os compatriotas como tolos.

De outro lado, com vista às eleições, unem-se os populistas ocupantes do governo federal com os mesmos "coronéis" de sempre: José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho, Fernando Collor, Paulo Maluf, cujas seriedade e visão de interesse público foram já tão firmemente questionadas, mas são vistos como se nada tivesse acontecido, em despudor gritante, no qual o que menos importa é a coerência.

No Brasil, a crise do Parlamento ganha contornos mais prosaicos: o vice-presidente da Câmara descobre-se ser sócio e amigo íntimo do doleiro para o qual convergem ilicitudes de toda ordem; deputado do PT, amigo de ministros e potentados do seu partido, reúne-se com líderes do crime organizado que promovem incêndios de ônibus. Aos saltos e sobressaltos, na busca frenética de poder político ou econômico, sem escrúpulos, ficam esquecidos quaisquer limites éticos: vale tudo. Adicione-se ainda o sombrio panorama econômico brasileiro, com significativa redução de investimentos, retração no campo da indústria, crescimento pífio do PIB e queda do consumo das famílias.

Por tais razões não se vive com alegria a hospedagem do grande acontecimento da Copa do Mundo. Em 58 ou 62 éramos mais pobres, subdesenvolvidos, mas tínhamos esperança e crenças positivas. Hoje, doentes, ao menos respondemos com indiferença à Copa, a indicar um corpo social que ainda reage às bactérias da corrupção, da desabrida ambição de poder, da mentira e da empulhação.

Espero, otimistamente, que a sensação de desalento se modifique no correr do evento, para se imbuir de espírito esportivo, do calor da competição, fazendo-se valioso e breve hiato na tristeza que recobre a Nação. O brasileiro merece viver uma festa saudável.

*Advogado, professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça

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