Cornetas da guerra comercial

A China comprou no ano passado 95,5 milhões de toneladas e cerca de um terço desse volume saiu dos Estados Unidos. Se for preciso recorrer a outros produtores, um deles será provavelmente o Brasil

O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 03h00

Os corneteiros da guerra comercial assustam os mercados, mas há tempo, ainda, para um acordo de paz. O susto aumentou com a resposta chinesa à ameaça americana de taxar a importação de produtos no valor anual de US$ 50 bilhões. Cotações despencaram nas bolsas de valores, incluída a Bovespa. Foi afetado também o mercado de matérias-primas e caíram os preços do petróleo, do cobre e, inevitavelmente, da soja. O temor espalhou-se quando Pequim anunciou a disposição de taxar mais de uma centena de bens, com valor total parecido com o da lista americana publicada um dia antes. Entre os itens principais da relação chinesa estão aviões e carros, além de produtos agropecuários. Essa relação, como se previa, atinge severamente Estados onde houve grande apoio à eleição do presidente Donald Trump.

Mas o governo chinês logo apontou o caminho da negociação, ao apresentar à Organização Mundial do Comércio (OMC) um pedido de consultas com as autoridades americanas. Se as conversações falharem, uma disputa legal será iniciada. A iniciativa chinesa valoriza o sistema internacional de regras, menosprezado por Trump. Americanos, europeus e japoneses contra-atacaram no mesmo fórum, acusando os chineses de violar a propriedade intelectual.

O mercado chinês é o maior importador de soja. A China comprou no ano passado 95,5 milhões de toneladas e cerca de um terço desse volume saiu dos Estados Unidos. Se for preciso recorrer a outros produtores, um deles será provavelmente o Brasil, um de seus principais fornecedores. A Argentina, prejudicada pela seca, estará menos preparada para ampliar suas vendas.

Mas ninguém pode estar certo de ficar imune aos efeitos de uma guerra entre as duas maiores economias do mundo. A manutenção da paz e do funcionamento normal dos mercados será a solução mais segura para todos e a mais propícia a ganhos comerciais no médio e no longo prazos.

“Não será surpresa se o resultado for algum tipo de negociação”, disse à CNBC o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, antes de noticiado o pedido de consultas pelo lado chinês. Do lado americano, essa iniciativa dificilmente surgiria.

O representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, repetiu as acusações de seu chefe, Donald Trump, às políticas chinesas de comércio e de absorção de tecnologia. O próprio Trump voltou a falar sobre o assunto, mas com alteração em sua retórica belicista. “Não estamos em guerra comercial com a China”, disse ele. “Essa guerra foi perdida há muitos anos por pessoas tolas ou incompetentes que representaram os Estados Unidos. Agora temos um déficit comercial de US$ 500 bilhões por ano, com furto de propriedade intelectual de outros US$ 300 bilhões. Isso não pode continuar.”

Se as condições para a guerra estão dadas é porque as primeiras ameaças partiram do lado americano. A retórica chinesa é baseada na ideia da legalidade e da manutenção das normas multilaterais do sistema comercial. No começo do ano passado, o presidente da China, Xi Jinping, abriu a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, com um discurso contra o protecionismo. Dias depois, Trump, já conhecido por suas ameaças aos parceiros comerciais, assumiria a função de presidente dos Estados Unidos. O governo chinês mantém, agora, o contraste entre as duas posições.

Nenhuma nova tarifa americana entrará em vigor antes de um debate interno. Empresas dos Estados Unidos poderão apresentar objeções até 22 de maio. Muitas delas poderão ser prejudicadas pelo aumento de custos associado aos impostos sobre importação. Além disso, haverá perdas se for aplicada a retaliação prometida pelas autoridades chinesas.

Os dois governos terão tempo para iniciar negociações e evitar a guerra. Mas o mercado internacional ficará menos seguro, de toda forma, se a experiência for vista como estímulo à ameaça protecionista como forma de arrancar concessões dos parceiros.

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