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Cortar os dinheiros do Senai?

É difícil ter orgulho da nossa educação. No Pisa, estamos nos quinquagésimos, dentre 60 e poucos países. Nem os colégios privados se destacam. No primeiro grau, os alunos do topo (predominantemente dessas escolas) não atingem os níveis de filhos de operários da OCDE. No ensino médio, cujos custos dobraram, nossos alunos não dominam nem 10% dos conteúdos de Matemática. Nesse nível, os gastos por aluno praticamente dobraram, a qualidade não reagiu e a deserção anda por volta de 50%.

Cláudio de Moura Castro*

28 Setembro 2015 | 03h00

Nossas universidades federais têm custos equivalentes à média da Europa. Mas, infelizmente, apenas duas ou três estão nas listas das melhores do mundo. Nelas, o único brilho está nos doutoramentos, nível em que temos um bom número de programas de padrão internacional.

No todo, nosso ciclo acadêmico exibe uma qualidade lastimável. Analisando as tendências, não parece que estejamos saindo do buraco. Existe, contudo, uma exceção no nosso ensino. Trata-se do Senai (e do Senac, Senar e Sest/Senat, que respeito, mas conheço menos). Criado no início dos anos 1940, vem preparando a mão de obra industrial utilizada por nossas melhores indústrias. Embora não seja fácil demonstrar, preto no branco, é uma boa hipótese supor que sem ele nossa revolução industrial não teria sido possível.

Todos os países industrializados, sem exceções, dispõem de um excelente e caro sistema de formação profissional, sempre financiado pelo erário. Coincidência? Luxo de rico?

A “teoria da jabuticaba” afirma que se só existe no Brasil e não é jabuticaba não pode prestar. Curiosamente, há um aspecto do Sistema S que desafia tal máxima. De fato, somente o Brasil usa em larga escala a fórmula de financiar as associações patronais para que operem sistemas semipúblicos de formação profissional. Isso traz várias vantagens.

Entre elas, trata-se de um sistema privado, voltado para a satisfação de necessidades coletivas e com todas as vantagens de não ser repartição pública. Outro ganho ainda mais radical é que, sendo operado pelos empresários, quem administra o sistema é quem contrata seus graduados. Ou seja, se o Senai não prepara a mão de obra que a indústria pretende contratar, os empresários têm a faca e o queijo para exigir que isso volte a acontecer. E, na verdade, as pesquisas de acompanhamento de egressos mostram um excelente nível de aproveitamento, nas profissões cursadas ou afins.

Compare-se com os cursos técnicos federais, onde os professores ganham mais do que nas escolas privadas de primeira linha. Pior, neles predominam alunos de classe média que irão para a universidade. Essas instituições não acompanham de forma sistemática a carreira dos egressos e persistem em oferecer programas cujos graduados não encontram o emprego correspondente. Faz pouco, vi um assim em Cachoeiro do Itapemirim. A quem pais ou empresários poderiam reclamar? Ao ministro, a algum burocrata do MEC, ao diretor da escola? Bem sabemos da ineficácia de tais reclamações.

Já o interesse direto dos empresários é bastante robusto, mantendo o Senai no rumo. Pode corrigir desvios com um canetaço, mas no cotidiano o que funciona é o medo de levar puxões de orelha. Essa cobrança é bem previsível nas boas federações de indústria. Mas pode haver falhas nas outras, frágeis, ou em Estados pouco industrializados.

Na minha observação, elas por elas, o sistema funciona bastante bem. Além disso, bate sempre na tecla do profissionalismo, do trabalho bem feito, da limpeza imaculada, do perfeccionismo, da responsabilidade pessoal e da obediência serena às regras do jogo. Aplica com êxito a clássica receita da industrialização bem-sucedida.

As últimas semanas nos brindaram com duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa é que o Brasil obteve a primeira classificação no World Skills, uma competição que inclui 50 ofícios, dos mais simples, como pedreiro, aos mais sofisticados, como robótica. Passamos à frente de Coreia, Japão, Alemanha e Suíça, enfim, todos os 62 países participantes. Não é pouca coisa.

Quando trabalhava em agências das Nações Unidas (OIT, Banco Mundial e BID), era voz corrente que o Brasil, dentre os países do Terceiro Mundo, era o que tinha o melhor sistema de formação profissional. Agora, as medalhas do World Skills transformam a “voz corrente” em evidência sólida.

Os resultados mostram que temos escolas tão boas quanto as melhores do mundo. Permanece, porém, a cruel diferença de que no Primeiro Mundo praticamente todos têm acesso a cursos de boa qualidade. Em contraste, o Sistema S ainda atinge proporção limitada dos jovens e adultos que poderiam beneficiar-se de uma boa formação profissional.

Note-se que os melhores sistemas da América Latina (Colômbia e Costa Rica) - copiados do Senai - gastam 2% da folha de pagamento. Já o Senai e seus irmãos recebem só 1%.

A segunda notícia é uma ducha fria no extraordinário resultado do World Skills. Os orçamenteiros propõem que para cobrir o vergonhoso déficit das nossas contas é preciso subtrair 30% dos recursos do Sistema S. Parece piada de mau gosto. Proponho um desafio aos proponentes do corte. Que visitem dez escolas do Senai, quaisquer, em quaisquer Estados. Aposto que ao término da visita terão mudado de ideia.

Dos bilhões de reais gastos com o ensino técnico federal, quantos financiam os graduados que trabalham na nossa maltratada indústria e quantos financiam a preparação para o vestibular de alunos de boa renda familiar? Em contraste, o tributo do Senai financia alunos pobres.

Para lidar com desperdícios bem identificados a motosserra enguiça. Mas agora mira o orçamento das únicas instituições de padrão mundial que possuímos. Já cortaram fundos dos doutorados. Agora querem os do Sistema S.

*Doutor em Economia, é pesquisador em Educação

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