Corte de juros e inflação

Diante da inflação persistente, analistas do mercado financeiro começam a reduzir as apostas num corte da taxa básica de juros, a Selic, já neste ano. Uma redução ainda poderá ocorrer, mas será mais limitada do que se previa até há algumas semanas, segundo economistas citados em nota da Agência Estado. As opiniões mais cautelosas são explicáveis por dois fatores. O primeiro é o repique dos preços no varejo, no mês passado. A alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 0,61% em abril para 0,78% em maio. Com isso, a variação acumulada em 12 meses subiu de 9,28% para 9,32%, distanciando-se ainda mais do limite anual de tolerância, fixado em 6,5%. O segundo fator é a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo o relatório, a meta oficial de 4,5% será alcançável em 2017, se os juros forem mantidos em 14,25%, taxa atual, e o câmbio ficar em R$ 3,60 por dólar. 

O Estado de S. Paulo

21 Junho 2016 | 03h00

Os dois fatores são importantes, mas o segundo tem um significado especial. Além de apontar a meta como alcançável no próximo ano, se aquelas condições forem observadas, a ata recomenda com muita ênfase a manutenção dos juros em vigor no momento da reunião. Não há condições para afrouxamento da política, por causa das persistentes pressões inflacionárias e das perspectivas de evolução dos preços. Essas passagens, de acordo com analistas, criam uma dificuldade especial para mudanças na política monetária nos próximos meses.

Os entrevistados, no entanto, deixaram de citar um detalhe também relevante. As apostas na redução dos juros foram em parte baseadas numa avaliação do perfil do novo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn. 

Fontes do mercado mais de uma vez mencionaram, desde as primeiras notícias de sua indicação, uma provável inclinação de Goldfajn para uma política mais moderada, ou, no jargão dos profissionais, mais dovish (adjetivo derivado da palavra dove, pombo, por oposição a hawkish, de hawk, falcão). Mas nenhum pronunciamento do novo presidente, desde a sabatina no Senado, confirmou claramente essa avaliação. Além disso, a ata e os últimos dados da inflação tornam complicada qualquer suavização da política a curto prazo, exceto, é claro, se houver uma grande surpresa no quadro dos preços.

Essa surpresa, por enquanto, parece muito improvável. As expectativas em relação aos preços têm piorado. A mediana das projeções do mercado aponta uma alta de 7,25% neste ano. Uma semana antes a previsão era de 7,19%. Quatro semanas antes, de 7,04%. Esses números aparecem na última pesquisa Focus, divulgada ontem pelo Banco Central. As avaliações sintetizam uma consulta a cerca de cem especialistas. Para 2017 a mediana das previsões indica inflação de 5,50%, estimativa mantida há um mês. É uma taxa superior à meta apontada como alcançável pelo Copom. Até por ficar acima da meta, essa projeção aconselha uma política ainda cautelosa. 

Em um mês a taxa básica de juros esperada para o fim deste ano passou de 12,75% para 13%. A mediana das estimativas ainda corresponde a uma redução, mas a mudança prevista é mais moderada. Além disso, a média esperada para 2016 é uma taxa de juros básica de 13,97%. Isso ocorrerá se a mudança for bem gradual. Uma redução mais acelerada é prevista para 2017, com a taxa final diminuída para 11,25%. 

As projeções de juros ainda envolvem alguma aposta na disposição do Copom para suavizar a política. Esse é um jogo arriscado, porque a evolução dos preços dependerá, nos próximos meses, de pelo menos dois fatores muito incertos. Um deles é a política do banco central americano. Qualquer novo aumento de juros nos Estados Unidos poderá resultar em valorização do dólar e em pressões do câmbio sobre os preços no Brasil. O segundo fator é o ajuste das contas públicas, sujeito a um cenário político muito inseguro. Mesmo com a confirmação do impeachment, a correção fiscal envolverá negociações difíceis. 

 

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