Crescimento em 2017?

Este ano, o PIB deve ter uma expansão anualizada de 2% nos últimos meses do ano

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

Neste início de ano, as duas perguntas mais frequentes referem-se à natureza do governo Trump e seu impacto no cenário internacional e à expectativa de crescimento para 2017. Tentamos encaminhar a primeira das questões em nossos dois últimos encontros. Desta vez, é hora de discutir o ano em curso no Brasil. 

Tomando como base a evolução da pesquisa Focus, observamos que, desde o início de dezembro, as estimativas convergiram para um número de 0,50% e aí se mantiveram nas últimas seis semanas. Pior do que isso, existem várias projeções ainda menores, como a recentemente divulgada pelo FMI, de 0,2%. São números cautelosamente baixos que, na verdade, revelam a projeção de crescimento de alguma relevância apenas para 2018. 

Há várias razões para essa visão. Todas elas são indiscutíveis e também estão presentes no cenário que exponho adiante. A primeira é o elevado desemprego, que fechou 2016 em 12%. Esse nível se manterá alto durante este exercício. Em consequência, o consumo não puxará o crescimento. 

O segundo ponto considerado é a precária situação dos balanços de inúmeras empresas. Continuaremos a ver um número importante de pedidos de recuperação judicial, com todas as suas consequências negativas sobre emprego e atividade. Setores como construção pesada, naval, construção residencial e comércio continuam a mostrar desempenho ruim, com muitos casos nos quais a geração livre de caixa é inferior à conta de juros que tem de ser paga. 

Finalmente, tem pesado muito na atividade a crise de boa parte dos Estados brasileiros. Em particular, os casos do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul pesam bastante, pela importância dessas regiões. Nesses locais, os níveis de inadimplência são particularmente complicados.

O cenário que exponho a seguir reconhece que todos esses eventos estarão de fato atrapalhando a recuperação da economia. Entretanto, há razões para uma projeção de crescimento melhor, de 1% no exercício de 2017, mas com uma expansão anualizada de 2% nos últimos meses do ano. Nessas condições, o efeito arrasto para 2018 será positivo, com uma elevação do PIB da ordem de 2,6%. 

Inicialmente, gostaria de observar que os elementos expostos no cenário de maior cautela provavelmente já pararam de piorar e haverá cinco elementos positivos, novos, em 2017. 

Em primeiro lugar, deveremos colher neste ano uma excelente safra agrícola. Os climatologistas se mantêm otimistas a respeito, e em algumas áreas a colheita já começou. Esta boa safra traz três benefícios para a economia: uma apreciável injeção de renda no interior, superior a R$ 200 bilhões, distribuída por quase todo o território nacional; a manutenção de uma tendência de preços baixos de alimentos; e mais produtos para exportar.

Em segundo lugar, haverá uma razoável injeção de recursos na economia com a liberação do saque das contas inativas do FGTS. Estima-se algo entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, boa parte dos quais será utilizado para reduzir dívidas ou consumir.

Em terceiro lugar, a desaceleração da inflação está sendo bem maior do que se esperava. Todos os grupos de produtos, inclusive serviços, mostram tendência declinante, sem mágicas nem artifícios. Entre julho e agosto, a taxa de inflação em 12 meses estará abaixo de 4%, algo impensável há pouco tempo. Como os dissídios do ano passado ficaram na faixa de 7,5% a 9% e a projeção da inflação para 2017 é de 4,7%, haverá um ganho real de salários neste ano. Além disso, a inflação de 2018 deverá ser semelhante. Como consequência, os dissídios coletivos deverão convergir para 5% ou 5,5%. 

Esse cenário benigno para a inflação permite ao BC reduzir significativamente a taxa de juro. Projetamos 9,25% para o fim do ano e um número inferior a 9% para 2018. 

Finalmente, veremos alguma recuperação dos investimentos na área de petróleo e em transmissão de energia em alta tensão. É possível também alguns eventos em saneamento e em aeroportos. 

A soma desses fatores deverá produzir a volta cautelosa do crescimento. 

*Economista e sócio da MB Associados. Escreve quinzenalmente

 

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