Crescimento versus calotes

Credores e devedores puderam ter um pouco mais de tranquilidade em 2017

O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 03h04

Depois de muitos calotes, atrasos e quebras, credores e devedores puderam ter um pouco mais de tranquilidade em 2017, graças à reativação dos negócios, à criação de empregos e, naturalmente, aos juros menores. Nos 12 meses terminados em janeiro a inadimplência do consumidor foi 3,8% menor que nos 12 meses anteriores, de acordo com levantamento nacional da Boa Vista SCPC. Em janeiro, o número de registros foi 6,2% menor que o de um ano antes – mais um indício considerável de melhora das condições econômicas e financeiras. Mas de dezembro para janeiro as dívidas com pagamentos em atraso aumentaram 1,6%, mesmo com desconto dos fatores sazonais. Pode ser uma oscilação sem grande significado, mas pode também ser um sinal de alerta para o governo e para os políticos com poder para afetar a evolução da economia.

É preciso formular a mesma ressalva quando se consideram os pedidos de recuperação judicial e os de falência. A melhora do quadro é evidente, quando se comparam os dois últimos períodos de 12 meses. Os pedidos de falência recuaram 19%. Os de recuperação judicial diminuíram 20,2%. Os dados são menos entusiasmantes quando o confronto envolve os meses de janeiro deste ano e de 2017. Os pedidos de falência foram 26,1% menos numerosos, mas os de recuperação judicial superaram por 45% os de um ano antes. O aumento de dezembro para janeiro foi de 31,8%. Também este será um sinal amarelo?

Fevereiro começou com a perspectiva de repetição, e até de ampliação, de vários fatores positivos acumulados em 2017, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, segundo estimativas correntes, cerca de 1%, provavelmente um pouco mais. A inflação continua baixa e deve continuar moderada, segundo as avaliações do mercado. Na semana passada ficou em 3,95% a mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), segundo a pesquisa Focus do Banco Central (BC). A estimativa de crescimento do PIB chegou a 2,70%, pouco acima da apurada na semana anterior (2,66%). Detalhe importante, o aumento da produção industrial subiu, na semana, de 3,18% para 3,35%.

Com a perspectiva de inflação bem abaixo dos 4,25% fixados como meta para o ano, os economistas do mercado repetiram a aposta numa taxa básica de juros de 6,75%. O boletim Focus com essa estimativa foi divulgado ontem, dois dias antes do anúncio de uma nova taxa pelo Comitê de Política Monetária do BC.

O novo corte era obviamente esperado para essa data, embora a projeção valesse para todo o ano. Se alguma insegurança induzisse os membros do comitê a manter a taxa de 7%, em vigor desde o fim do ano, uma redução seria menos provável nos meses seguintes.

A evolução dos juros é importante por mais de uma razão para o futuro da inadimplência de consumidores e de empresas. A primeira e mais óbvia é a maior ou menor facilidade do crédito. No ano passado muitos consumidores puderam liquidar ou renegociar suas dívidas num ambiente de crédito menos custoso e de muito boa disposição dos credores. As campanhas de renegociação foram de modo geral concluídas com sucesso.

A segunda razão é o efeito da queda dos juros no crescimento econômico. Financiamentos mais baratos foram um dos componentes do cenário de saída da recessão e de retomada gradual do crescimento. O quadro incluiu a criação de empregos e de aumento de consumo facilitado também pela inflação baixa e, portanto, pela menor corrosão da renda.

Os mais otimistas dão como certa a continuação, e até a aceleração, do crescimento econômico. Mas isso dependerá em boa parte do avanço na arrumação das contas públicas e da confiança de empresários, consumidores e investidores. A aprovação da reforma da Previdência terá um considerável efeito positivo. Falta saber como o mercado reagirá se a reforma for deixada para o próximo governo. Calotes, atrasos de pagamento e falências entrarão, é claro, na mensuração dos efeitos do progresso ou do emperramento dos ajustes.

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