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Crise no investimento

O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2014 | 02h 06

Mais uma confirmação de um primeiro semestre muito ruim para os negócios foi apresentada pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Segundo ele, os desembolsos até junho foram "moderados", isto é, menores que os da primeira metade do ano passado. Os números serão divulgados em breve, acrescentou. Mesmo essa informação incompleta, no entanto, reforça a avaliação de um quadro econômico muito ruim nos primeiros seis meses do ano e, mais que isso, de perspectivas de baixo crescimento ainda por um bom tempo. Apesar de tudo, Coutinho tentou ser cauteloso: é cedo, afirmou, para dizer se neste ano o investimento em capital fixo - máquinas, equipamentos, construções e infraestrutura - será menor que em 2013. Pode ser, mas os dados até agora conhecidos são bem claros em relação a um ponto: depois de mais de três anos de estagnação, os empresários estão sem confiança para investir.

Os últimos números do BNDES cobrem o período até abril e são, na maior parte, desanimadores. Os desembolsos para a indústria, nos primeiros quatro meses, foram 23%menores que os de um ano antes. No caso da agropecuária, 22% menores. Houve expansão de 48% nos desembolsos para infraestrutura e de 27% para comércio e serviços. No conjunto, o aumento foi de 8%, mas a redução do dinheiro entregue aos dois principais setores produtivos mostra nitidamente um cenário de estagnação.

Ninguém deve iludir-se: os serviços podem ser o setor de maior peso no cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), mas a economia é movida principalmente pela produção da agropecuária e da indústria. O volume produzido por esses dois segmentos afeta diretamente a atividade de vários tipos de serviços. Os transportes são o exemplo mais evidente. Outro detalhe nem sempre lembrado: boa parte dos serviços, no Brasil, é pouco produtiva e pouco avançada tecnologicamente.

Os desembolsos para comercialização de máquinas e equipamentos nacionais - Finame, Finame Leasing e Finame Agrícola - também dão ideia da baixa disposição para investir. De janeiro a abril essas operações totalizaram R$ 22,91 bilhões, valor 0,11% maior que o de um ano antes. Essa diferença ficou muito abaixo da inflação acumulada de um ano para outro.

Números mais atualizados da indústria também apontam a redução do dinheiro aplicado em bens de capital, isto é, em máquinas e equipamentos. De janeiro a junho, a produção de bens de capital foi 8,3% inferior à do primeiro semestre de 2013, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em 12 meses houve um crescimento acumulado de 1,2%, mas o impulso claramente se esgotou na primeira metade deste ano. Além disso, também a importação de bens de capital tem diminuído. Até julho, foi 6% menor que nos mesmos sete meses de 2013.

No primeiro trimestre o total investido pelo governo e pelo setor privado ficou em 17,7% do PIB. A proporção estava em 19,5% nos primeiros três meses de 2o11, no começo do governo de Dilma Rousseff. Caiu a partir daí. Também caiu nesse período a taxa de poupança, de 17% para 12,7%, no período de janeiro a março deste ano. A redução da taxa de poupança resultou principalmente do desarranjo das contas públicas.

A diferença em relação ao investimento bruto foi coberta por uma proporção crescente de capitais estrangeiros. Esses capitais também ajudaram no fechamento das contas externas. Foram necessários para cobrir o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. O quadro seria menos grave se o déficit houvesse resultado de uma grande expansão de investimentos. Nesse caso, a piora da conta corrente estaria associada a um fato positivo para o crescimento - a acumulação de capital na forma de máquinas, equipamentos, construções e obras de infraestrutura. Mas a história efetiva foi outra. O buraco em transações correntes decorreu muito mais do estímulo ao consumo - uma tendência insustentável - do que do esforço para investir. Em vez de construir, essa política compromete o futuro.

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