De olho na eleição

A pressa e a improvisação com que estão sendo tomadas decisões importantes sobre o sistema de trânsito e o transporte de ônibus na capital parecem indicar que por trás delas está menos o desejo genuíno de melhorar um e outro e muito mais a motivação política e eleitoral, pois é notório o engajamento do prefeito Fernando Haddad na empreitada do PT para conquistar o governo do Estado. A cidade poderá pagar um preço alto por essa busca desenfreada de melhoras no máximo imediatas e enganadoras.

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h10

A implantação de faixas exclusivas de ônibus é um exemplo disso. Feita a toque de caixa para atingir logo os 220 km prometidos, sem estudos aprofundados sobre sua real utilidade e seu impacto do sistema de trânsito, os efeitos negativos dessa correria já estão aparecendo. Um deles ficou logo evidente na Avenida 23 de Maio - o congestionamento decorrente da redução do espaço para os outros veículos convive com o subaproveitamento da faixa exclusiva, utilizada por reduzido número de ônibus. Um atestado da ausência de planejamento em sua implantação.

O prefeito Haddad e o secretário municipal de Transporte, Jilmar Tatto, não se cansam de alardear que aumentou a velocidade média dos ônibus nessa e em outras faixas. Além de esse aumento não ser tão expressivo como sugerem, eles fingem não ver que o pouco uso da faixa da 23 de Maio, importante via do corredor norte-sul, reduz muito os benefícios que dela se esperavam. A verdade é que essas faixas trouxeram apenas alguns ganhos isolados. Portanto, sem melhoria do sistema como um todo, que seria o correto.

Outra consequência da forma atabalhoada com que a Prefeitura vem agindo nesse caso pode ser observada na Avenida Paulista. A faixa exclusiva para ônibus foi implantada ali de tal forma que os táxis não conseguem mais operar nessa via. Como os bolsões em que eles podem parar são muito poucos e distantes uns dos outros, tornou-se quase impossível pegar táxi na Paulista ou ali desembarcar de um deles. E isso não é uma questão menor, pois nessa avenida - pela qual passam centenas de milhares de pessoas por dia - e suas adjacências se concentram escritórios de importantes empresas e uma dezena de hospitais.

Haddad e Tatto, que insistem - com uma indisfarçável ponta de demagogia - que a prioridade da sua administração é o transporte coletivo, ao qual o individual deve ceder espaço, custe o que custar, se esquecem de que o serviço de táxi, aqui como em todo o mundo, é também uma forma de transporte público. Não é porque seu custo é mais elevado que o de ônibus, metrô e trem que ele deixa de exercer esse papel.

Portanto, a não ser pelo fato de ele servir a uma parcela menor da população, de renda mais elevada - o que o torna sensível ao apelo demagógico -, a hostilidade do atual governo ao táxi é dificilmente compreensível. E ela só vem crescendo. Após proibir o seu acesso às faixas exclusivas, a Prefeitura agora estuda fazer o mesmo nos corredores de ônibus, pelos quais o táxi pode circular desde que esteja com passageiro.

Segundo Tatto, um estudo de 2011, feito pela SPTrans - empresa que gerencia o serviço de ônibus -, mostrou que a presença de táxis nos corredores atrapalha os ônibus. Tanto essa não é uma questão pacífica que o Ministério Público pediu à Prefeitura que apresente estudos sobre o impacto dos táxis nessas vias.

Mais uma medida prestes a ser adotada pela Prefeitura, que demonstra a sua ânsia de inovar para impressionar sem pensar nas consequências, é a redução da velocidade máxima permitida em importantes vias, como as Avenidas Paulista e 9 de Julho - onde ela passará de 60 km/h para 50 km/h -, e outras do centro da cidade, onde ela será de apenas 40 km/h.

A justificativa apresentada por Tatto para essa medida, que pode comprometer a fluidez do trânsito, não convence - garantir maior segurança aos ciclistas e pedestres. Ora, a vulnerabilidade de ambos é tal que aquela redução não diminui os riscos a que eles se expõem.

A forma de agir em todos esses casos não prenuncia boas coisas para a cidade.

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