De quem é a culpa?

Economia em marcha à ré, inflação e desemprego, saúde e educação em dramática falta de recursos, corrupção e insegurança pública epidêmicas, greves no serviço público, intranquilidade política e por aí vai. O quadro é desolador.

Mario Cesar Flores*, O Estado de S.Paulo

31 Março 2016 | 03h00

São muitas as razões aventadas, algumas abrangentes e estruturais e outras episódicas ou conjunturais. Na economia, que induz consequências em tudo, a influência internacional (paradoxalmente, o mundo progride, salvo em países flagelados por conflitos internos e devaneios ideológicos, a exemplo da Venezuela) e as injunções da natureza (chuva em excesso em algumas áreas, seca em outras). Todas de fato contribuem, mas há uma razão que as transcende e as influencia, moderando-as ou agravando-as, hoje em dia mais agravando: o desempenho dos condutores do País.

Nos últimos oito decênios construímos um modelo de poder político em que o patriarcado rural, protagônico do Brasil colônia à Primeira República, foi substituído pelo poder político eleito fundamentalmente pelas massas urbanas. Somos, agora, conduzidos por um sistema político e pela máquina administrativa por ele nomeada, pautados por padrão funcional e técnico (competência) muito aquém do exigido pela complexidade brasileira e por padrão ético (em que se insere a corrupção desenfreada) em forte déficit – ambos presentes no dia a dia da mídia. Um modelo em que, diferentemente do que ocorre na economia privada, na qual a incompetência, o descaso e a improbidade não são tolerados, na política e no serviço público, que administram propriedade abstrata, do povo, há tolerância. Existem, é claro, figuras competentes, de relevo intelectual e ético, mas sem a força (a dimensão) necessária para superar a carga negativa. Sintomaticamente, em consonância com nossa crise atual, essa relação parece ser pior atualmente do que era no passado: os fatos levam a crer que o modelo que criamos estimula a “vocação” política (e pelo serviço público) mais em quem seria preferível que não a tivesse...

A defasagem entre o necessário e o existente e o déficit ético explicam os graves erros estratégicos e de execução, as omissões e os procedimentos ilegais que tumultuam a vida brasileira. A crise atual, refletida sinteticamente no início deste artigo, é consequência destes erros, omissões e procedimentos. É bem verdade que não apenas deles, mas principalmente deles: nosso mundo político – e, a reboque, o administrativo, modelado em razão do poder político –, da Federação (influência principal) aos pequenos municípios, não soube no passado e não sabe, agora, equacionar nossos problemas, controlar suas causas e minorar seus efeitos, por incompetência e/ou descaso ou porque, em coerência com nossa cultura patrimonialista, como está, está bom...

O que esperar (alguns exemplos emblemáticos, de agenda que se arrasta há muitos anos) da condução política que reluta em resolver assuntos de importância relevante para o País (mas geralmente de risco político-eleitoral no curto prazo), como são a arapuca previdenciária, a legislação trabalhista anacrônica, a regulação do direito de greve no serviço público, o paradigma federativo (encargos e recursos) e muitas outras questões que afetam negativamente o quadro nacional interno e prejudicam a inserção do País no mundo integrado?

Em vez de saúde, educação e infraestrutura logística, recursos públicos, escassos diante das grandes necessidades nacionais, são aplicados, com a sanção do ânimo folgazão ou da indiferença do povo, na anestesia populista psicossocial: Copa, Olimpíada, réveillon, carnaval... Vale pensar: o custo de um dos megaestádios construídos para a Copa de 2014, alguns deles hoje praticamente sem uso que os justifique, ou o do preparo do Rio de Janeiro para a Olimpíada de 2016, ajudaria decididamente a resolver o caótico problema da saúde no Estado do Rio de Janeiro – se não o do Brasil. Não se trata de menoscabar o entretenimento do povo, que merece atenção, mas há que cotejá-lo responsavelmente com as demandas prioritárias do País (do próprio povo). O cancelamento por dezenas de prefeituras do patrocínio do carnaval deste ano, em benefício de ações sociais exigidas pela crise vigente, sugeriu responsabilidade, competência e coragem política singulares no quadro nacional. Terá sido um lampejo de esperança?

Resumindo: a contribuição das razões internacionais, da natureza e outras episódicas ou conjunturais, frequentemente afirmadas como responsáveis pela macrocrise que estamos vivendo, realmente existe, por vezes até forte. Não se pode negar que algumas delas – o preço do petróleo, a retração da importação chinesa e os humores malignos do El Niño são os exemplos da moda – têm peso conjuntural ponderável, mas não é correto atribuir-lhes a grande culpa, como tem ocorrido na retórica política do poder e em manifestações populares de ranço político-populista. A culpa maior cabe à condução nacional lato sensu, mas principalmente à condução política, de influência abrangente, intensa e até imperativa. Seus parâmetros de organização e funcionamento inibiram no passado e inibem hoje a construção dos alicerces legais e das estruturas econômicas e sociais capazes de controlar e superar as várias influências negativas que atropelam a vida nacional.

Não será fácil mudar essa realidade. Mas, se não mudar, o Brasil continuará sujeito a crises periódicas, continuará país emergente sem nunca emergir à superfície plenamente desenvolvida, a despeito do potencial brasileiro – extensão territorial, recursos naturais, solo fértil, ausência de grandes catástrofes naturais e uma base industrial já razoável. Não deverá surpreender se a Argentina, também vitimada por crise forte, saia do fosso antes do Brasil; o primeiro passo dessa evolução já pode ter sido dado.

*Mario Cesar Flores é almirante

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