De volta à mesa

Depois de três anos de paralisia, recomeçam hoje em Genebra as negociações entre o Irã, Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha, sob a égide da ONU, sobre o programa nuclear de Teerã. O degelo das conversações - apesar das incertezas que as cercam e das desconfianças recíprocas - é um teste crítico para a distensão e eventual normalização das relações entre o Ocidente e a República Islâmica. O novo presidente do país persa, Hassan Rohani, se elegeu em junho, pregando, além de reformas no plano interno, uma abertura diplomática que mandaria para o arquivo morto os oito anos de arreganhos da era Ahmadinejad.

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2013 | 03h16

Por formação, temperamento e experiência internacional, Rohani é o oposto do antecessor, mas a razão de ser da mudança que advoga são os efeitos devastadores das sanções econômicas que atingiram o Irã por reiteradas transgressões do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) de que é signatário. Nos últimos dois anos, as exportações iranianas de petróleo caíram a menos da metade e o país foi excluído da rede global de movimentações financeiras. Diferentemente de Israel, cujo governo acusa Rohani de ser um "lobo em pele de cordeiro", as grandes potências resolveram dar-lhe uma chance.

Há poucas semanas, pela primeira vez desde o advento do regime teocrático de Teerã, um presidente dos Estados Unidos conversou (por telefone) com um governante iraniano. A Grã-Bretanha e o Irã, de seu lado, se preparam para reatar relações diplomáticas. O clima para o novo ciclo de negociações, portanto, parece ser o menos crispado a contar de 2005, quando o mesmo Rohani chefiava a delegação de seu país - apenas para ser em seguida desautorizado pelos aiatolás. À época, o Irã chegou a suspender as atividades de enriquecimento de urânio.

Passados cinco anos, o Irã chegou a aceitar a proposta conjunta do primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, e do presidente Lula pela qual Ancara estocaria o material sensível iraniano e repassaria a Teerã urânio enriquecido na Rússia na medida certa para abastecer um reator de pesquisas medicinais. Embora tivesse incentivado Lula a participar da intermediação, na hora H o presidente Barack Obama vetou o esquema, esvaziando a rodada de conversações em curso em Genebra. Agora, o que poderá mudar efetivamente? Depende do ponto de partida - o plano em três etapas, ainda sigiloso, que o Irã ficou de apresentar aos interlocutores.

Segundo o vice-ministro iraniano do Exterior, Abbas Araghchi, o roteiro visa a garantir a "independência" do programa nuclear e ao mesmo tempo acabar com as dúvidas sobre as suas intenções pacíficas. Seria um esquema de "construção de confiança", tendo por alicerce o levantamento das sanções. Duas coisas, porém, ele afirmou que o Irã não fará: deixar de enriquecer urânio e enviar o combustível para refino em outro país. Para os céticos, a primeira das negativas há de soar como a antecipação de um impasse. Afinal, poderão sustentar, a persistir o confessado enriquecimento do material físsil a 20% nas instalações iranianas, o país só não fará a bomba se não quiser.

Como que a tranquilizar de antemão os governos ocidentais, Araghchi diz que, "naturalmente, vamos negociar a forma, o volume e os diversos níveis de enriquecimento". Ele diz que o desfecho buscado por Teerã não terá perdedores. "O Irã sairá vencedor quando continuarmos com os nossos planos nucleares", declarou numa entrevista. "E o outro lado sairá vencedor quando se assegurar de que o Irã não está em busca de armas atômicas." A carta na manga iraniana, especula um bem informado analista de Teerã, Mohammad Ali Shabani, seria a disposição de concordar com o Protocolo Adicional ao TNP, de 1997.

O anexo dá aos fiscais da ONU o direito a vistorias irrestritas e sem prévio aviso a instalações nucleares dos países signatários. A adesão iraniana a esse abrangente sistema de inspeções (que o Brasil, estranhamente, se nega a aceitar) seria - esta, sim - uma bomba.

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