Deboche em Congonhas

Diante do teor do depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva à Polícia Federal (PF) no dia 4 de março, quando foi levado coercitivamente ao Aeroporto de Congonhas, não seria adequado dizer que o ex-presidente desrespeitou a Justiça. A atitude de Lula é pior. Esbanja indiferença e desprezo, sem receio de mostrar que se considera acima da lei e se acha ultrajado simplesmente por lhe perguntarem sobre os escândalos em que se enredou.

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Lula tinha o direito de ficar calado e não dar nenhuma resposta aos investigadores sobre o tríplex no Guarujá, o sítio de Atibaia, as doações recebidas pelo Instituto Lula, os repasses do instituto a determinadas empresas, suas requisitadas palestras pelo mundo afora. Mas preferiu fazer um show midiático. Estava em Congonhas para esclarecer suspeitas de ter utilizado sua entidade e suas palestras para receber propinas de empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás. Ao invés disso, preferiu anunciar sua candidatura à Presidência da República em 2018.

Perguntado sobre o tríplex no Guarujá, Lula fez a seguinte explanação: “Eu tenho uma história de vida, a minha mulher com 11 anos de idade já trabalhava de empregada doméstica e minha mulher prestar um depoimento sobre uma porra de um apartamento que não é nosso?! Manda a mulher do procurador vir prestar depoimento, a mãe dele. Por que que vai minha mulher? (...) Eu quero te dizer o seguinte: eu ando muito puto da vida, muito, muito zangado porque a falta de respeito e a cretinice comigo extrapolou”. As autoridades presentes agiram com exemplar cortesia e sangue frio. Em outras circunstâncias, palavras como essas justificariam a prisão de seu autor em flagrante, por crime de desacato.

Sem pudor, Lula usou sua história de vida para blindá-lo da necessidade de esclarecer os fatos relativos ao apartamento no Guarujá, que visitou com Léo Pinheiro, presidente da OAS e condenado a 16 anos de prisão por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás. Lula ainda teve o descaramento de explicar por que não tinha ficado satisfeito com o imóvel. “Quando eu fui a primeira vez, eu disse ao Léo que o prédio era inadequado porque além de ser pequeno, um triplex de 215 metros é um triplex Minha Casa, Minha Vida”.

Quando lhe dava na veneta, Lula se enchia de indignação e fazia um longo desabafo, debochando das suspeitas que recaem sobre sua conduta. Por exemplo, para Lula, “a Polícia Federal inventa a história do tríplex, que foi uma sacanagem homérica”. Mais adiante, explicitou o modo como ele se sentia durante o depoimento: “E eu fico aqui que nem um babaca respondendo coisas de um procurador”.

É grave que Lula, sendo quem é – um ex-presidente da República – não se dê conta de que há instituições e de que há leis, de que há na vida democrática de um país várias esferas, que merecem respeito e não podem ser manipuladas a seu bel-prazer. Nem tudo é passível de escárnio. Lula, no entanto, intencionalmente coloca-se bem longe dessas preocupações. O que lhe interessa é fazer seu jogo político. Sua disposição – assim faz questão de deixar transparecer – é vencer no grito a qualquer custo.

Lula não pode alegar ignorância. O seu desprezo pela Justiça era de caso pensado. Não estava ali um ingênuo. Lula sabia muito bem quando devia ser evasivo ou quando devia remeter a terceiros a responsabilidade. A respeito do Instituto Lula, jogou o peso das decisões sobre Paulo Okamotto, presidente do instituto, e seus quatro diretores – Clara Ant, Celso Marcondes, Paulo Vannuchi e Luiz Dulci. Professoral, ainda expôs a razão para essa atitude. “Porque eu trabalho com a ideia que os diretores têm que ter muita autonomia com relação a mim”, afirmou o petista.

O País conhece bem esse tipo de governança. Lula nunca sabe de nada e, se for necessário, não poupa ninguém. Sobre a gestão financeira, afirmou que “nem no instituto e nem em casa eu cuido disso. Em casa tem uma mulher chamada dona Marisa que cuida”. Com essas evasivas diante de graves denúncias, quer ser presidente mais uma vez.

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