Delírio cicloviário

O prefeito Fernando Haddad é mesmo incansável, não para atacar os muitos e graves problemas que São Paulo enfrenta, como seria de esperar porque é sua obrigação, mas quando se trata de lançar ideias e propostas tiradas de seu baú de hábil marqueteiro de si mesmo. Como parte da “revolução” na mobilidade urbana que estaria promovendo na capital, que só ele, seus áulicos e alguns deslumbrados enxergam, a rede de ciclovias deverá atingir 1,7 mil km até 2030, de acordo com os planos do atual governo, como mostrou reportagem do Estado.

O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 03h00

Hoje há 381 km de ciclovias, dos quais 284 km foram implantados por Haddad, total que, se ele cumprir suas promessas, chegará a 400 km ainda neste ano. Faltará 1,3 mil km até aquela data para chegar ao mirabolante 1,7 mil km anunciado. O objetivo da proposta de multiplicar por quatro a atual rede nos próximos 14 anos – que felizmente não vai depender de Haddad, mas de seus sucessores – é fazer a ligação das regiões mais afastadas com o centro. Ela prevê, por exemplo, pista exclusivas para bicicletas na Avenida Teotônio Vilela, na zona sul, e em parte de Radial Leste, do Tatuapé ao Parque Dom Pedro.

Os comentários a respeito dessa proposta feitos por Daniel Guth, um dos dirigentes da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo e entusiasta da expansão das ciclovias, estão em sintonia com a falta de seriedade com que o governo Haddad trata essa questão. Primeiro, diz ele que há interesse e demanda na cidade por mais ciclovias. Onde estão os estudos em que se baseia para afirmar isso? Se eles existem, porque não são apontados e, em caso positivo, o que garante sua qualidade técnica?

É preciso reconhecer que o sr. Guth tem a atenuante de seguir o mau exemplo dado pelo atual governo municipal, que nunca apresentou à população qualquer justificativa técnica, de comprovada seriedade, para a rápida expansão daquelas vias exclusivas. Em vez de estudos sobre a demanda por esse tipo de transporte – indispensável, já que as ciclovias têm impacto não negligenciável sobre o sistema viário –, a Prefeitura se limitou a dizer, genericamente, que a oferta estimula a demanda.

O sr. Guth elabora também um estranho raciocínio para defender o 1,7 mil km de ciclovias: “São Paulo tem 17 mil km de vias. Pensar em 1,7 mil km de ciclovias é o mínimo. E não precisamos esperar até 2030 para isso”. Uma coisa nada tem a ver com a outra. A cidade poderia ter a metade de quilômetros de vias e precisar do dobro do que se pretende de ciclovias, ou o contrário disso. Não é a extensão de umas que determina a extensão das outras, mas, nos dois casos citados, a demanda devidamente comprovada.

As ciclovias podem, sim, desempenhar um papel no sistema de transporte. Mas antes de implantá-las é preciso saber, por meio de estudos técnicos, qual é exatamente esse papel e o que ele exige em termos de extensão e localização das vias. Nada disso foi feito. As ciclovias foram implantadas sem planejamento, em meio a um estardalhaço demagógico. Não foi por acaso que elas começaram na região central, em bairros de classe média, até chegar à Avenida Paulista, enquanto patinavam na periferia onde tudo indica que sua necessidade é maior.

Não admira também que, em consequência, a maioria das ciclovias do centro esteja quase sempre deserta. Que boa parte dos ciclistas continue preferindo as faixas dos carros e ônibus e as calçadas, e que a maioria deles se julgue uma classe privilegiada – anda com frequência na contramão, sem equipamentos de segurança e trata os pedestres com a grosseria e a agressividade que condenam nos motoristas de carro. E ai de quem ouse criticá-los.

Não é surpresa, nesse contexto, que um dos poucos itens realmente importantes do plano de mobilidade da Prefeitura – o dos corredores de ônibus – é um fracasso. Ficou muito longe da meta de 150 km fixada por Haddad, por causa de projetos mal feitos questionados pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).

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