Demanda de liberdade

Paul Johnson, brilhante historiador britânico, é um dos grandes intelectuais da atualidade. Seus textos são afiados e provocadores. Dono de uma cultura invejável e de sinceridade cortante, Johnson não sucumbe aos clichês vazios. Em seu livro Os Heróis ele destaca a importância das lideranças morais. "Os heróis", diz Johnson, "inspiram, motivam. (…) Eles nos ajudam a distinguir o certo do errado e a compreender os méritos morais da nossa causa".

Carlos Alberto di Franco, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2014 | 02h02

Os comentários de Johnson trazem-me à memória um texto que exerceu forte influência no rumo da minha vida: Amar o Mundo Apaixonadamente, homilia proferida por São Josemaría Escrivá, primeiro grão-chanceler da Universidade de Navarra, durante missa celebrada no câmpus daquela prestigiosa instituição. São Josemaría foi um mestre na busca da santidade no trabalho profissional e nas atividades cotidianas. A Editora Quadrante, de São Paulo, lançou uma primorosa reedição da homilia.

Propunha, naquela homilia vibrante e carregada de ousadia, "materializar a vida espiritual". Queria afastar os cristãos da tentação "de levar uma espécie de vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas".

O cristianismo encarnado nas realidades cotidianas: eis o miolo da proposta de São Josemaría. "Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser esquizofrênicos se queremos ser cristãos", sublinha. E, numa advertência contra todas as manifestações de espiritualismo mal entendido e de beatice, afirma de modo taxativo: "Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca".

"A vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia." A vida, o trabalho, as relações sociais, tudo o que compõe o mosaico da nossa vida é matéria para ser santificada. São Josemaría, um santo alegre e otimista, olha a vida com uma lente extremamente positiva: "O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus". O autêntico cristão não vive de costas para o mundo nem encara o seu tempo com inquietação ou nostalgia do passado. "Qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus." A luta do nosso tempo, com suas luzes e suas sombras, é sempre o desafio mais fascinante.

O pensamento de São Josemaría, apoiado numa visão transcendente da vida e, ao mesmo tempo, com os pés bem fincados na realidade material e cotidiana, consegue, de fato, captar plenamente a contextura humana e ética dos acontecimentos. Ele tem, no fundo, a terceira dimensão: a religiosa e ética - e só com esse foco é possível entender plenamente o mundo em que vivemos. Na verdade, o esgotamento do materialismo histórico e a crescente frustração do consumismo hedonista prenunciam uma mudança comportamental: o mundo está sedento de liberdade, mas nostálgico de certezas.

Articular verdade e liberdade é, talvez, um dos mais interessantes recados de São Josemaría. Insurge-se, vigorosamente, contra o clericalismo que se oculta na mentalidade de discurso único, na injusta dogmatização das coisas que são legitimamente opináveis. São Josemaría afirma que um cristão não deve "pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja" nem que "as suas soluções são as soluções católicas para aqueles problemas". Por defender esse pluralismo sofreu incompreensões, até de algumas pessoas da Cúria Romana, que entendiam, por exemplo, que na Itália os católicos tinham o dever de votar no Partido da Democracia Cristã.

São Josemaría não deixa de enfatizar o valor insubstituível da liberdade - particularmente a liberdade de expressão e de pensamento - contra todas as formas de intolerância e sectarismo. Para ele, o pluralismo nas questões humanas não é algo que deva ser tolerado, mas, sim, amado e procurado.

A sua defesa da liberdade, no entanto, não fica num conceito descomprometido, mas mergulha na raiz existencial da liberdade: o amor - amor a Deus, amor aos homens, amor à verdade. Sua defesa da fé e da verdade não é, de fato, "antinada", mas a favor de uma concepção da vida que não pretende dominar, ao contrário, é uma proposta que convida a uma livre resposta de cada ser humano.

Seus ensinamentos se contrapõem a uma tendência cultural do nosso tempo: o empenho em confrontar verdade e liberdade. Frequentemente as convicções, mesmo quando livremente assumidas, recebem o estigma de fundamentalismo. Tenta-se impor, em nome da liberdade, o que poderíamos chamar de dogma do relativismo. Essa relativização da verdade não se manifesta apenas no campo das ideias. De fato, tem inúmeras consequências no conteúdo ético da informação.

A tese, por exemplo, de que é necessário ouvir os dois lados de uma mesma questão é irrepreensível; não há como discuti-la sem destruir os próprios fundamentos do jornalismo. Só que passou a ser usada para evitar a busca da verdade. A tendência a reduzir o jornalismo a um trabalho de simples transmissão de diversas versões oculta a falácia de que a captação da verdade dos fatos é uma quimera. E não é. O bom jornalismo é a busca apaixonada da verdade. O jornalismo de qualidade, verdadeiro e livre, está profundamente comprometido com a dignidade do ser humano e com uma perspectiva de serviço à sociedade.

Amar o Mundo Apaixonadamente não é apenas um texto moderno e forte. Sua mensagem, devidamente refletida, serve de poderosa alavanca para o exercício da nossa atividade profissional.

A todos, feliz Natal!

* Doutor em comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais. E-mail: difranco@iics.org.br

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