Democratização do futebol

Passado o período de ressaca provocada pela derrota na Copa do Mundo, a hora é de reflexão, naturalmente seguida de atitudes concretas que nos forneçam uma melhor perspectiva para o futuro. Não se trata de termos a certeza de ganhar a próxima Copa. É óbvio que esse é o desejo nacional, proclamado e insistentemente verbalizado, mas sua concretização depende de uma série de fatores imponderáveis. O que pode e deve ser objetivado é a correção dos erros e a mudança dos rumos para que se possa afirmar que tudo foi feito para a realização do sonho.

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2010 | 00h00

Quando falo em reflexão, não me refiro à análise do desempenho técnico e tático da seleção ou ao exame das convocações, nem à avaliação do discurso pseudopatriótico de Dunga, nem à disciplina de caserna imposta aos atletas, que os isolou do mundo. Todas essas e outras apreciações sobre o desempenho do selecionado, de seus integrantes individualmente considerados e dos demais aspectos que o envolvem me parecem absolutamente desnecessários, pois não têm o poder de recuperar o leite derramado, importa, sim, é não entorná-lo novamente.

A análise que me parece imprescindível, seguida de providências adequadas, é de uma questão, ou melhor, de um problema, do qual é possível que todos os demais decorram. Não se diga que, se tivéssemos vencido, ele não seria abordado. Seria, sim, talvez fosse adiado, como vem sendo há décadas, mas cedo ou tarde seria posto para ser solucionado.

Trata-se do absurdo e incompreensível autoritarismo que domina o futebol brasileiro. Aliás, o nosso regime futebolístico ditatorial parece ser o espelho do que ocorre em outros países e na Fifa. Mas é claro que essa internacionalização não justifica o despotismo aqui reinante. Na verdade, deveríamos e deveremos dar o exemplo da democratização mundial do futebol.

Nós estamos plenamente qualificados a dar o exemplo. Se nos últimos anos construímos uma sólida democracia, arrostando dificuldades extraordinárias, por que não poderemos erigir um edifício democrático que venha a abrigar um dos valores mais estimados, respeitados e cultuados que possuímos, que é o futebol?

Um dos preceitos basilares da democracia é a alternância no poder. Nenhum homem e nenhum grupo pode eternizar-se no poder. O poder é cego, as ideias envelhecem, a dinâmica social não é acompanhada e o tirano mais se afasta do povo e da sua vontade.

A primeira grande anomalia que vemos no nosso chamado esporte bretão é exatamente a possibilidade de seus dirigentes se perpetuarem no poder. A Constituição, lei suprema, limita os mandatos dos chefes do Executivo a duas eleições consecutivas, uma reeleição. E enquanto as eleições para prefeito, governador e presidente da República são diretas, as dos senhores do futebol são indiretas. Ou melhor, são, em vários casos, um arremedo de eleições. Os conchavos, acertos de bastidores, barganhas de toda espécie determinam aqueles que mandarão no futebol.

Assim, vê-se que o futebol destoa das demais instituições pátrias. Que ninguém duvide constituir o futebol uma instituição nacional. Basta uma consulta aos dicionários. O Houaiss, e basta ele, ensina que instituição é "cada um dos costumes ou estruturas sociais, estabelecidas por lei ou consuetudinariamente, que vigoram num determinado Estado ou povo". Ou ainda, "estrutura material e humana que serve à realização de ações de interesse social ou coletivo" (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, página 1.627).

Poucas coisas na vida nacional despertam mais o interesse social do que ele. Trata-se não de um costume ou hábito, mas de uma atividade que despertou uma paixão sedimentada no curso de aproximadamente um século e está incorporada ao Estado brasileiro e ao seu povo.

Qualquer instituição pública ou particular, com finalidades as mais diversas, alterna os seus dirigentes, que são escolhidos por meio de eleições das quais participam os seus integrantes.

Outro aspecto benéfico da democracia é a transparência. E nesse ponto reside outra anomalia do futebol. Uma das instituições menos transparentes que se conhecem é a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que comanda o futebol brasileiro. Essa falta de transparência é consequência da própria falta de alternância do poder e da ausência do povo na escolha de seus dirigentes. Como estes não dependem do voto direto e sabem que poderão permanecer indefinidamente em seus cargos, não se preocupam e não se sentem obrigados, nem sequer por interesse, a dar satisfações de seus atos, de sua gestão e de suas decisões. Agem rigorosamente como tiranos, que têm o poder absoluto sobre os seus súditos.

Aliás, estes, no caso do futebol, os torcedores ? na verdade, todo o povo brasileiro ?, ficam à margem do processo decisório, à mercê dos detentores do poder, que não é por eles (o povo) legitimado. Uma impotência absoluta. Ao povo são reservados a tristeza ou a alegria, o sofrimento ou o júbilo, a decepção ou a euforia, e nada mais. Ele é sugado sentimentalmente, sendo certo que muito provavelmente os nobres sentimentos do povo não são os mesmos que movem os dirigentes. Na verdade, o sentimento popular é transformado em reles objeto mercantil.

Seria demasia postular eleições diretas para a presidência da CBF? Lembre-se que o Código Civil já determina que os associados escolham os dirigentes dos clubes. Seria excesso outorgar ao povo o direito de escolher o técnico da seleção? Ou até os jogadores que a integrarão? É claro que obstáculos de ordem prática podem impedir a adoção da democracia plena, em que o povo tudo decide. É, no entanto, imprescindível que o futebol receba os benfazejos ventos democráticos, que com certeza lhe trarão novos e saudáveis ares que purificarão a grande paixão da Nação brasileira.

ADVOGADO CRIMINAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.