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Depois da bonança, a tempestade

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*João Mellão Neto

Passada a festa e ainda sob efeitos da ressaca, o Brasil vai retornando aos poucos a sua dura realidade. Organizar uma festa em casa é algo muito trabalhoso. E, convenhamos, até que não nos saímos tão mal assim. O anfitrião, que hesitou em entrar na pista para dançar, esbanjou simpatia e cordialidade. Alguns casos à parte, enquanto houve festa, a alegria e a bonança prevaleceram em nossas ruas. A impressão geral que nossos convidados levarão em sua bagagem - já que, como afirmou nossa presidente, não poderão levar os estádios como lembrança - será positiva. Foi uma verdadeira festa de arromba! Uma Copa com médias altíssimas de gols - bem sabemos - e de público. Grandes emoções foram servidas aos que aqui vieram.

Mas como tudo o que é bom sempre acaba, pouco a pouco os convidados foram saindo e voltando para casa. Uns pela porta da frente, gentilmente se despedindo, outros "à francesa". Mas o que não estava no script era a saída do próprio anfitrião, que, após ingerir "7 doses", tristemente teve de abandonar a própria festa, antes mesmo que a música parasse e tivesse a sonhada chance de conquistar a mocinha cobiçada, a taça do mundo. Tudo havia sido montado para conquistá-la dentro de casa. Acreditava-se que qualquer despesa extra, por maior que fosse, teria valido a pena se, ao fim, pudesse ter a amada em seus braços, aos olhos do mundo todo. Agora corre o sério risco de vê-la justamente nos braços do seu maior rival. Que, cá entre nós, não precisou gastar um desvalorizado peso argentino para tanto, bastou atravessar a rua...

Mas, apesar dos pesares, o show tem de continuar. Enquanto houver convidados, a cortesia e a gentileza devem também continuar.

Algo contra dar uma festa em casa para impressionar os nossos vizinhos ou conquistar a mocinha pretendida? Sinceramente, não. Ceder o espaço para a alegria e a integração das mais diferentes nações é algo extremamente positivo. Ganhar a Copa, também. Antes a competição nos campos de futebol do que nos de batalha. E é nos gramados que nós, brasileiros, podemos equiparar-nos às grandes potências, sentindo um pouco pertencermos ao Primeiro Mundo. E temos cinco grandes razões para tanto. Nada mais natural que ambicionarmos recepcionar a Copa do Mundo no país que mais vezes a conquistou.

O grande problema é que não se deve dar uma festa "padrão Fifa" - facilmente atendido apenas por nossos colegas mais abastados - enquanto dentro de casa não apresentamos condições de prover aos nossos próprios filhos acesso a uma boa escola ou de tratá-los num hospital minimamente decente. É algo um tanto questionável e inconsequente.

Caímos na síndrome do vizinho complexado que, na tentativa de impressionar a comunidade ao redor, resolve abrir sua casa oferecendo uma grandiosa recepção com tudo do bom e do melhor. Isso certamente exige alguns gastos aqui, outros reparos ali... Afinal, todos devem ter a impressão de que a casa é de "Primeiro Mundo". E quanto menos ela o for, maior será o preço da "maquiagem". O que o irresponsável vizinho não percebe é que, uma vez que se chama a atenção para sua suposta opulência, toda a sua vida e a de sua família passam a ser alvo de olhares mais atentos. De onde será que veio tanto progresso de repente? Será que finalmente emplacou? E isso já começou a ser devastado antes mesmo de a festa começar.

Agora, com a festa acabada e sem as distorções causadas pela embriaguez, a imagem vai ficando mais nítida. E com o som baixando já se escuta a criança gritando no quarto. Isso quando não resolve proferir palavrões diante de todos os convidados... Como diria Tancredo Neves, se quiser descobrir se as pessoas de uma casa falam mal de você, repare em como as crianças o tratam. Estas não conseguem mentir. Então, ao fixar os olhos nas nossas crianças, a comunidade mundial verá que toda a "abundância" não passou de uma grande ilusão. Os estádios que foram construídos nada trarão em termos de maior qualidade de vida para a nossa população. Nem sequer temos demanda econômica para todos eles. Serão meros elefantes brancos alimentados no jardim de casa pelo contribuinte, que terá de arcar com a sua manutenção.

O anfitrião pode desfrutar a tão sonhada "noite de rei", mas quando voltar à sua realidade perceberá não só que é plebeu, como está endividado. Ao acordar no dia seguinte, além da enorme dor de cabeça, terá de lidar com filhos cada dia mais esclarecidos e indignados com as irresponsabilidades do pai.

Mas, diferentemente de uma casa comum, as criança aqui já atingiram a maioridade e até gozam de certa autonomia. Andam cada dia mais amadurecidas, embora ainda estejam um tanto longe do nível de um verdadeiro adulto. E elas detêm o poder de mudar o destino da casa. As mesadas que durante anos lhes foram ofertadas - as famigeradas Bolsas Família - as ludibriam cada dia menos. Os filhos deste solo descobrem a cada dia que passa que a mãe não é lá "tão gentil" assim. Por mais gratos que sejam ao mínimo de dignidade que ela lhes trouxe, começam a ver que ela lhes escondia oportunidades de um futuro muito melhor. Tal instrumento não pode ser utilizado para justificar e legitimar a irresponsabilidade fiscal, gerencial e moral que há alguns anos nos assola.

De tão invocada, finalmente a herança maldita chegou. Há sujeira espalhada por toda a casa. Aquele que a assumir terá de arcar com a responsabilidade de que, além de uma bela faxina, a regra agora passará a ser dormir e acordar cedo, trabalhar duro. Chega de ostentação. A verdadeira prosperidade chega àqueles que planejam o futuro inteligentemente e trabalham de forma árdua para cumpri-lo. E já que não pudemos ficar até o fim da nossa própria festa, que a mocinha, ao menos, caia nos braços daqueles que hoje melhor encarnam tais valores.

Alguma sugestão para torcermos no domingo?

*

JORNALISTA, FOI DEPUTADO, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO

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