Derrota do antiamericanismo

À parte sua evidente importância política, a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba - sacramentada simbolicamente pelo presidente americano, Barack Obama, e pelo ditador cubano, Raúl Castro, na Cúpula das Américas - deve ser vista principalmente como um revés para os países latino-americanos que fazem do antiamericanismo um meio de vida.

O Estado de S.Paulo

16 Abril 2015 | 02h05

Enquanto os autocratas bolivarianos expressavam sua enfadonha ladainha contra o "imperialismo americano", responsabilizando os Estados Unidos por todos os males de seus países, Obama e Raúl trocavam gentilezas, ajudando a criar uma atmosfera de estímulo à cooperação regional e desamarrando a América Latina de seus entraves ideológicos - criados em grande medida por influência da revolução cubana, mais de meio século atrás.

Como resultado, os países da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), que haviam monopolizado as atenções nas edições anteriores da Cúpula das Américas, ficaram em segundo plano.

A cúpula resumiu o momento de grande fragilidade desses regimes, dependentes do instável mercado de commodities e dos humores da China e da Rússia. O modelo fortemente estatista da Venezuela, do Equador e da Bolívia, para ficar apenas nos três mais significativos, degringolou depois de uma década em que a bonança externa ajudou a criar o mito de que a pobreza poderia ser extirpada apenas pela vontade de seus líderes - sob inspiração do caudilho Hugo Chávez e do ditador Fidel Castro.

Essa era de ilusória prosperidade tinha como peça de resistência o antagonismo em relação aos Estados Unidos. Todo o suposto progresso alcançado pela via bolivariana era qualificado como uma vitória dos povos latino-americanos contra os "ianques", como se fosse uma continuação da revolução cubana. Não é à toa que os atores principais dessa farsa tenham sido Chávez e Fidel, mestres na arte da impostura.

O gesto de Obama na direção de Raúl Castro teve o condão de romper a lógica desse discurso, um efeito muito mais importante do que os eventuais desdobramentos econômicos da reaproximação entre EUA e Cuba. Ficou claro, na Cúpula das Américas, que o antiamericanismo não deu e não dará futuro a ninguém.

Durante a plenária do encontro, os autocratas da Venezuela, Nicolás Maduro, do Equador, Rafael Correa, e da Bolívia, Evo Morales, tentaram manter o jogo no terreno que lhes é familiar, ao lembrar as diversas agressões protagonizadas pelos americanos na América Latina desde o século 19, repetindo o discurso hostil das reuniões anteriores. Na última cúpula, em 2012, Obama reagiu com irritação a essas acusações: "Tais controvérsias datam de uma época em que eu nem era nascido, e sinto que o relógio parou nos anos 50, tempo dos ianques, da guerra fria, disso, daquilo". Agora, Obama demonstrou bom humor: "Eu sempre aprecio as lições de história que recebo aqui".

Ainda há um longo caminho até que Estados Unidos e Cuba restabeleçam relações plenas. Embora tenha mandado retirar Cuba da lista americana de países que patrocinam o terrorismo, gesto que facilitará o acesso cubano a financiamentos, segue em vigor o mais significativo empecilho nas relações: o anacrônico embargo americano à ilha. A suspensão desse bloqueio depende do Congresso, que tem sido hostil a Obama.

Mas o simbolismo desse encontro entre os líderes dos Estados Unidos e de Cuba serve para marcar o fim de uma época de enfrentamento que não tinha mais razão de ser. "A guerra fria acabou faz tempo. Os Estados Unidos não ficarão prisioneiros de seu passado - estamos olhando para o futuro", discursou Obama.

O presidente americano fez profissão de fé na diplomacia, nessa nova era de relacionamento na América Latina, classificando de "contraproducentes" as políticas americanas que foram "além da persuasão". E aproveitou para alfinetar os bolivarianos, ao dizer que, agora, os países que usam os Estados Unidos "como desculpa para seu próprio fracasso" não poderão mais fazê-lo.

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