Desaceleração moderada

Já era esperada a redução do ritmo de crescimento da economia brasileira no terceiro trimestre, confirmada pelos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na sexta-feira, mas há, pelo menos, duas surpresas nesses números. A desaceleração não foi tão acentuada quanto muitos previam - o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,2% em relação ao trimestre anterior, bem menos do que a expansão de 2,7% do primeiro trimestre do ano, na comparação com os últimos três meses de 2009, mas mais do que a média de 0,7% estimada pelos economistas do mercado financeiro -, o que fortalece as projeções de que, no ano, o crescimento será de mais de 7%. Sabia-se que, por razões eleitorais, o governo vinha aumentando seus gastos, mas não se previa que esse aumento pudesse ter tanto impacto na economia.

, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2010 | 00h00

Os gastos de consumo do governo aumentaram acentuadamente entre abril e junho. Nos três primeiros meses do ano, esses gastos foram 0,8% maiores do que nos três últimos meses de 2009, uma variação bem menor do que a do PIB nesse período. No segundo trimestre de 2010, no entanto, o crescimento do consumo do governo se acelerou, para 2,1%, e foi maior do que o aumento do PIB.

Um fator sazonal explica parte desse crescimento. No início do ano, quando não tem uma avaliação precisa do comportamento das receitas, o governo contingencia os gastos. Em 2010, essa prática evitou a ampliação mais rápida do consumo no primeiro trimestre e abriu espaço para crescimento maior nos trimestres seguintes. Mas há outra explicação para o aumento dos gastos: a disputa eleitoral. Nos meses que antecedem as eleições, os governos costumam liberar mais recursos do que fazem normalmente, como está fazendo desde o segundo trimestre.

Enquanto o setor público arranjou folga para gastar ainda mais, as famílias tiveram de conter a expansão de seu consumo. No primeiro trimestre, o consumo das famílias aumentou 1,4%; no segundo, 0,8%. A perda de dinamismo do consumo das famílias se deve, em parte, ao fim dos incentivos fiscais para a compra de bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos.

Do lado da produção, a gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, destacou o desempenho da construção civil, que registrou crescimento de 16,4% na comparação com o segundo trimestre de 2009, desempenho alimentado sobretudo pelo aumento da oferta de crédito. Outro setor destacado pelo IBGE é a agropecuária, que cresceu 11,4% na comparação com 2009, que foi um ano ruim para o setor. O bom desempenho da agropecuária estimula outros setores da economia, como as indústrias de caminhões, máquinas e implementos agrícolas, de insumos agrícolas e de bens de consumo.

Um dado que se destaca nos números divulgados pelo IBGE é o do crescimento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede o aumento anual dos bens de produção instalados no País, ou seja, indica o aumento da capacidade produtiva do País. No segundo trimestre de 2010, a FBCF foi 26,5% maior do que em igual período do ano passado.

É preciso levar em conta, no entanto, que a base de comparação é muito baixa, pois no início de 2009 a economia foi agudamente afetada pela crise internacional. No segundo trimestre do ano passado, a FBCF tinha sido 16% menor do que em igual período de 2008, na maior baixa registrada pelo IBGE desde 1996, quando começou a aferir esse indicador.

A gerente de Contas Nacionais do IBGE aponta para um efeito positivo do aumento das importações - que crescem a um ritmo cinco vezes maior do que as exportações - nos investimentos. A importação de máquinas e equipamentos cresceu bastante, o que influencia positivamente na taxa de investimentos, que continua muito baixa no País.

Deve-se observar, no entanto, que crescem também, e em ritmo acelerado, as importações de bens de consumo e de bens intermediários, o que vem fazendo encolher o superávit da balança comercial e faz crescer o déficit em conta corrente, que pode chegar a US$ 50 bilhões em 2010. Não há risco imediato de o País enfrentar uma crise cambial, mas a deterioração muito rápida das contas externas preocupa.

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