Desafios da notícia na internet

Entender as tendências de consumo da notícia digital é de grande relevância pública, também por suas consequências para a democracia de um país

O Estado de S.Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

Em tempos de intenso debate sobre as “notícias falsas” (fake news) que circulam na internet – discutem-se, por exemplo, seus efeitos políticos ou a responsabilidade das redes sociais por sua difusão –, estudo do Pew Research Center, uma das instituições de maior prestígio nos Estados Unidos, revela dados interessantes sobre as tendências de comportamento no consumo das notícias digitais.

A proposta da pesquisa foi analisar a trajetória da notícia digital até as pessoas, como elas se lembram do que viram e quais são as reações após o contato com a informação. Para essa complexa tarefa, os pesquisadores elaboraram uma estratégia inovadora.

Durante uma semana, mantiveram contato com 2 mil adultos que habitualmente recebem notícias online. Duas vezes por dia, os entrevistados foram questionados se haviam recebido alguma notícia por via digital nas últimas duas horas e, em caso afirmativo, qual tinha sido a reação. O contato frequente permitiu fazer perguntas detalhadas sobre a trajetória da notícia e as diferentes reações.

O estudo separou cinco grandes caminhos da notícia digital: sites e aplicativos de empresas e organizações jornalísticas, redes sociais, ferramentas de busca, e-mails e mensagens de texto de empresas e organizações jornalísticas e, por último, e-mails e mensagens de texto de familiares e amigos. As duas trajetórias mais frequentes da notícia digital foram os sites e aplicativos jornalísticos (36%) e as redes sociais (35%).

Ponto importante da pesquisa foi detectar se os consumidores de notícias digitais tinham consciência da fonte de informação. O estudo mostrou que, em 56% dos casos, os entrevistados que clicaram no link da notícia souberam citar o nome da fonte de notícias. Tal consciência foi muito mais frequente quando o link veio diretamente de uma empresa jornalística do que nos casos de rede social ou de e-mail de um amigo. Por exemplo, 10% dos entrevistados responderam apenas que a fonte da notícia havia sido o “Facebook”.

Ainda sobre a consciência da fonte da notícia, dado tão relevante para detectar se o consumidor distingue os diferentes graus de qualidade da informação digital, a pesquisa revelou que o público mais velho se lembrou com mais frequência que os mais jovens da origem da notícia. Tal disparidade pode ser um interessante sintoma dos diferentes níveis de atenção com que cada faixa etária se dedica à leitura de notícias digitais.

Outra questão crítica enfrentada pelo estudo do Pew Research Center foi a respeito da reação que a notícia digital desperta nos consumidores. Quando eles a compartilham? Em que ocasiões as pessoas têm interesse em buscar mais informações sobre o assunto tratado na notícia digital? Quando elas vão conversar com os amigos sobre o que leram?

Segundo o estudo, a diferença de reações às notícias digitais ocorre tanto em razão da trajetória da informação como do tema tratado. Por exemplo, saúde e comunidade local foram os temas que mais suscitaram reações. A atividade mais comum decorrente de uma notícia digital foi a conversa offline (30%), seja por telefone ou pessoalmente. A segunda reação mais frequente, segundo a pesquisa, foi a busca por informações adicionais (16%).

Em relação às diferentes trajetórias da informação, as notícias que chegaram por e-mail ou por mensagens de texto de familiares e amigos provocaram mais reações posteriores (73% dos casos), superando até mesmo as notícias lidas nas redes sociais, consideradas muitas vezes como grande fonte de interações interpessoais.

Entender as tendências de consumo da notícia digital é de grande relevância pública, também por suas consequências para a democracia de um país. Como se sabe, as possibilidades de circulação da informação na internet significaram uma importante conquista social. Informações abundantes e fidedignas são a base das escolhas vitais de uma sociedade, desde aquelas que orientam o mais trivial consumo até aquelas que determinam a sorte dos regimes democráticos. Liberdade e informação correta são termos de uma mesma equação.

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