Desapreço à democracia

Pesquisa realizada pelo Projeto de Opinião Pública da América Latina (Lapop, na sigla em inglês) indica que 47,6% dos brasileiros se dizem favoráveis a um golpe militar num quadro de corrupção generalizada. O porcentual, como enfatizam os responsáveis pelo levantamento, não significa que o Brasil corra risco de viver um novo levante dos quartéis, mas indica a clara descrença na capacidade das instituições democráticas para combater a corrupção. Há, portanto, uma simpatia por soluções autoritárias ante a percepção de que os Poderes constituídos são ineficientes e venais.

O Estado de S.Paulo

06 Abril 2015 | 02h02

O número é tão mais impressionante quando se observa que as entrevistas para a pesquisa foram feitas entre março e abril de 2014 - antes, portanto, que o escândalo da Petrobrás viesse plenamente à luz. É lícito supor, portanto, que a indisposição dos brasileiros com a democracia, ao menos no que diz respeito à suposta vulnerabilidade desse regime aos corruptos, tenha se acentuado desde então.

O Lapop faz essa pesquisa desde 2004, como projeto da Universidade Vanderbilt (Tennessee), que há 60 anos estuda a opinião pública na América Latina. O resultado desse trabalho é o Barômetro das Américas, que aborda não só o estado da democracia, mas valores, comportamentos e situações socioeconômicas em todos os países latino-americanos, além de Estados Unidos, Canadá e parte do Caribe. Na mais recente edição, foram feitas entrevistas com 49.738 pessoas em 27 países - foram 1.500 no Brasil.

No quadro comparativo, o Brasil aparece entre os que apresentam o maior desapreço pela democracia na região. Apenas os entrevistados no Paraguai, na Nicarágua, no México, no Peru e na Guiana manifestaram maior apoio a um golpe em caso de corrupção desenfreada. "O porcentual de brasileiros que acham justificável uma intervenção militar para conter a corrupção é alto em comparação com outros países, e cresceu significativamente nos últimos dois anos", disse o pesquisador Guilherme Russo, que apresentou os resultados da pesquisa. Em 2012, o apoio a um golpe era de 36,3%; no ano passado, atingiu quase 48%. A margem de erro é de 2,5 pontos porcentuais, para mais ou para menos.

Um dado muito significativo, destacado por Russo, é que um levante militar foi aceito tanto por entrevistados que desaprovam o governo de Dilma Rousseff quanto pelos que com ele simpatizam. Entre os que consideram a administração da petista "ruim" ou "péssima", o apoio a um golpe no caso de corrupção generalizada chega a 52,8%. Já entre os que entendem que o governo de Dilma é "ótimo" ou "bom", nada menos que 45,6% também acreditam que uma intervenção militar seja justificável para combater desvios.

O desconforto cada vez maior dos brasileiros com sua democracia já havia sido detectado por outra pesquisa feita na América Latina, o Latinobarómetro. Em 2013, ano de grandes manifestações no País, apenas cerca de 20% dos brasileiros se diziam satisfeitos com o regime democrático. Na posse de Dilma, em 2011, eram 40%.

Não é possível dizer que a simpatia por uma solução autoritária se traduziria em apoio no caso de levante militar. Ademais, como enfatiza o pesquisador Russo, do Lapop, "o alto porcentual de aprovação a um golpe em tempos de grande corrupção não pode ser interpretado como uma manifestação direta de apoio às Forças Armadas numa eventual ação para derrubar o atual governo".

O mais importante a se observar é que há uma "tolerância generalizada em relação a soluções não democráticas para combater a corrupção na política", como escreveu Russo. O pesquisador, corretamente, chama a atenção para o fato de que, embora o regime democrático brasileiro venha demonstrando bastante vigor nos últimos tempos - quando até mesmo os defensores de uma intervenção militar puderam manifestar sua esdrúxula reivindicação livremente nas ruas -, o fato é que a crise política, o desastre econômico e a inação do governo contra os corruptos podem acelerar a deterioração do valor da democracia no País.

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