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Desertificação exige muita competência

WASHINGTON NOVAES

No Dia Mundial de Combate à Desertificação (17 de junho), o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, advertiu: estamos perdendo no mundo 24 bilhões de toneladas anuais de solo por causa da erosão, ao mesmo tempo que 2 bilhões de hectares de terras se degradam - comprometendo os esforços para aumentar a produção de alimentos e o combate à fome, que atinge 842 milhões de pessoas. E isso também ao mesmo tempo que desperdiçamos 1,3 bilhão de toneladas anuais de alimentos, que seriam suficientes para 2 bilhões de pessoas (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO-ONU, 7/5) e cuja produção nas lavouras gera emissões de gases que afetam o clima, as quais são uma das principais causas da erosão e da desertificação.

Um dos países que mais deram ênfase aos programas de desertificação, nesta semana, foi a Índia, onde o problema é muito grave. Por aqui, a ONG The Nature Conservancy e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) puseram ênfase na necessidade de medir a "pegada hídrica" em cada atividade, cada lugar, para possibilitar programas de redução de perda ou consumo desnecessário de água. Um dos setores mais em foco foi o da pecuária, já que a produção de carne bovina, por exemplo, exige o uso médio de 15,5 mil litros de água por quilo produzido (Embrapa, 17/6). No ano passado esse setor exportou US$ 6,6 bilhões - e aí seria preciso avançar com rigor no manejo hídrico, na redução de pastagens (ou aumento do confinamento), na irrigação noturna, na reutilização de água usada em lavagem de instalações para fertilização de pastagens, assim como a instalação de hidrômetros para avaliar o consumo em todos os lugares.

É possível acrescentar que o confinamento do gado e mudanças na alimentação permitiriam também reduzir a emissão de metano, um dos principais poluentes que causam mudanças de clima - segundo a Embrapa Meio Ambiente, cada boi emite por ano 58 quilos de metano em suas eructações e flatulências no processo de ruminação; e o metano é pelo menos 21 vezes mais poluente do que o dióxido de carbono).

No mesmo dia em que a ONU fazia suas advertências, no Brasil o Ministério do Meio Ambiente entregava certificados a projetos reconhecidos pelo programa Dryland Champions, da Convenção da ONU de Combate à Desertificação - que inclui atividades na área da seca no Semiárido. Poucas semanas antes, no Dia Nacional da Caatinga (28 de abril), lançara o Sistema de Gestão da Informação e do Conhecimento do Semiárido Brasileiro - uma das áreas mais problemáticas. Francisco Campello, que dirige essa área no ministério, lembra que é preciso frear o desmatamento, pois 30% da matriz energética do Nordeste exige a queima de lenha, assim como 40% das indústrias - sem falar em que boa parte da população do interior também precisa de lenha para cozinhar. É assim numa região que tem 22,6 milhões de habitantes, 42,5% do total do Nordeste, em 9 Estados e 1.135 municípios, que somam 980,1 mil quilômetros quadrados (ECO 21, maio de 2014).

É uma área também de pobreza extrema, com forte participação (50%) no programa Bolsa Família, que já inclui 13,8 milhões de famílias, das quais 2% ainda vivem em "extrema pobreza", 4% não chegam a completar o ensino fundamental, principalmente no Piauí e no Maranhão. E no País não têm acesso a água potável 5% da população, enquanto quase 40% não dispõem de ligação de suas casas com redes de coleta de esgotos (Ipea, 30/10/2013). De qualquer forma, o programa possibilitou reduzir de 8% para 4,7% a população em extrema pobreza no País.

Apesar dos avanços, a desigualdade de renda nacional, segundo o Ipea e o IBGE (Estado, 28/9/2013), quase nada se alterou em 2012, quando índice de Gini, que a avalia, caiu para 0,498 (era 0,501 em 2011 - quanto maior, mais grave). Talvez não evolua mais favoravelmente, com os índices econômicos em baixa. O economista da Unicamp Cláudio Dedecca (Estado, 3/11/2013) acha que as famílias desse programa não estão conseguindo romper as barreiras que dificultam a sua inserção produtiva, principalmente, por causa de dificuldades na educação. A seu ver, seria necessário dobrar o valor do benefício.

As dificuldades não são apenas por aqui. Segundo a FAO, a pobreza extrema cresceu na América Latina e no Caribe em 2013. E o problema principal esteve na insegurança alimentar: 68 milhões de pessoas são "indigentes" e 164 milhões, "muito pobres" (25/2). No Oriente Médio e no Norte da África, nada menos que 47,3 milhões de pessoas são indigentes ou muito pobres e 24% das crianças têm crescimento retardado. Seria preciso, diz a FAO, "empoderar as mulheres", principalmente nas áreas agrícolas, propiciar-lhes acesso à água, aos insumos agrícolas, ao crédito, a tecnologias.

Não seria muito diferente por aqui, onde a agricultura familiar responde por 70% dos alimentos consumidos no País - mas tem dificuldades para conseguir crédito (farto para a exportação) e outras facilidades. Poderão aumentar os problemas este ano, com a possibilidade (FAO, 17/6) de o fenômeno climático El Niño afetar a produção agrícola, especialmente no Nordeste.

Então, não nos podemos descuidar, inclusive com a necessidade de aumentar a produção de alimentos para consumo interno, já que temos cerca de 50 milhões de pessoas (incluídas as do Bolsa Família) em situação de pobreza. E, nesse caso, não é possível tolerar o desmatamento, o desperdício de água (também com pivôs centrais que chegam a perder 50% da água que vertem). Tampouco é possível seguir com a situação esdrúxula de perda média de 40% da água que corre pelas redes urbanas. Ou com a poluição em todas as bacias hidrográficas causada pelo despejo sem tratamento de esgotos.

As advertências são claras e não partem de "ambientalistas" radicais: vêm da ONU, da FAO, do Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). É difícil mudar as lógicas financeiras, do emprego, do próprio modo de viver. Mas não há alternativa.

WASHINGTON NOVAES É JORNALISTA

E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR