Desigualdade persistente

Estudo divulgado pelo IBGE mostra que, embora a situação das mulheres brasileiras tenha melhorado no País, ainda há um longo caminho para que as gritantes desigualdades de gênero verificadas no mercado de trabalho sejam finalmente superadas.

O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2014 | 02h05

O primeiro aspecto a se observar na pesquisa Estatísticas de Gênero 2014, baseada no Censo Demográfico de 2010, é que as mulheres ganham salários inferiores aos dos homens mesmo apresentando, na média, mais tempo de estudo e mesmo que o porcentual de mulheres responsáveis pela casa tenha saltado de 24,9% para 38,7% do total de domicílios entre 2000 e 2010.

Entre jovens de 15 a 17 anos que cursavam o ensino médio (adequado à sua idade), 42,4% eram homens e 52,2% eram mulheres. Nessa mesma faixa etária, a proporção de jovens que só trabalhavam e não estudavam era de 7,6% entre os homens e de 4% entre as mulheres. Além disso, o analfabetismo caiu 28,8% entre as mulheres, ante uma queda de 24,7% entre os homens.

Já no ensino universitário, as mulheres representavam 57,1% do total de estudantes entre 18 e 24 anos. Considerando-se o total da população nessa faixa etária, 15,1% das mulheres estavam no ensino superior, ante 11,4% dos homens. Há também mais mulheres entre aqueles que completaram alguma graduação - são 12,5% do total, ante 9,9% dos homens.

No entanto, as áreas mais procuradas pelas mulheres para formação superior são as que têm remuneração mais baixa - a maioria opta por Educação (83%) e Humanidades e Artes (74,2%). Até em áreas também muito procuradas pelos homens, como Ciências Sociais, Negócios e Direito, nas quais a proporção equivale à de mulheres, elas têm um rendimento que representa apenas 66,3% do obtido pelos homens.

No geral, mesmo com todo o empenho em melhorar sua instrução, as mulheres obtêm uma renda que representa apenas 68% da média do que ganham os homens. A boa notícia é que essa diferença está diminuindo, pois a renda das mulheres teve um aumento real médio na casa dos 12% entre 2000 e 2010, enquanto o ganho masculino cresceu 8% no período.

Também cresceu a participação feminina no mercado de trabalho - a taxa de atividade entre mulheres passou de 50,1% para 54,6% entre 2000 e 2010, e a dos homens caiu de 79,7% para 75,7%. No entanto, em mais um sinal de desigualdade, a formalização do trabalho ainda é maior entre os homens: passou de 50% para 59,2%, em comparação a um aumento de 51,3% para 57,9% entre as mulheres.

As diferenças se acentuam ainda mais quando se levam em conta a cor e o Estado de origem das mulheres. O analfabetismo entre as mulheres pretas caiu de 22,2% em 2000 para 14% em 2010 - uma redução considerável, mas ainda assim insuficiente para reverter a dramática desvantagem em relação às mulheres brancas, cuja taxa de analfabetismo caiu de 8,6% para 5,8% no mesmo período.

Quando se cruzam a cor e a região com a renda, o resultado é ainda pior. A proporção nacional de mulheres com renda de até um salário mínimo era de 33,7% em 2010. No entanto, ao se levar em conta apenas as mulheres pretas ou pardas da Região Nordeste, observa-se que 50,8% delas ganhavam até um salário mínimo. Considerando-se somente as mulheres pretas e pardas das áreas rurais nordestinas, a proporção sobe para 59,3%.

Além disso, as mulheres pretas ou pardas tinham um rendimento médio de R$ 727, o equivalente a 35% do rendimento médio dos homens brancos, na casa dos R$ 2.086. O ganho mais baixo foi verificado, novamente, entre as mulheres que viviam em áreas rurais - R$ 480, menos do que o salário mínimo da época (R$ 510).

A disparidade dentro de cada gênero também é maior entre as mulheres. A renda média das mulheres que detinham os 20% maiores ganhos chegou a R$ 3.367 em 2010, um valor 20,5 vezes maior que o rendimento médio das mulheres que detinham os 20% menores ganhos. Entre os homens, a desigualdade é bem menor - a relação entre o topo e a base da pirâmide de rendimento é de 14,1 vezes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.