Desperdício de água

A elevada perda de água, com o consequente prejuízo para as empresas concessionárias - que por isso perdem capacidade de investir na ampliação do serviço -, é um dos mais graves problemas enfrentados pelo Brasil na área de saneamento básico. Estudo feito pelo Instituto Trata Brasil mostra uma situação dramática, que exige medidas urgentes e ousadas. O esforço feito até agora por todos os que têm uma parcela de responsabilidade na questão tem ficado muito aquém do necessário.

O Estado de S.Paulo

24 Março 2013 | 02h07

Em 2010, a média nacional da perda de faturamento das empresas, decorrente das chamadas "perdas físicas" - vazamentos, roubos, ligações clandestinas, falta de medição ou medição incorreta do consumo de água -, chegou a 37,5%. Em números absolutos, foram R$ 12,5 bilhões. O sistema, diz o presidente do Trata Brasil, Édison Carlos, opera com apenas 62% de eficiência, arrecadando R$ 20,8 bilhões ao ano. A perda de arrecadação de R$ 12,5 bilhões supera o valor que o País investiu em água e esgoto durante um ano - R$ 9 bilhões em 2010.

Por região, a perda de faturamento foi maior, como era de esperar, no Norte (51,55%) e no Nordeste (44,93%). No Centro-Oeste foi de 32,59%; no Sudeste, de 35,19%; e no Sul, de 32,29%. Surpresa particularmente desagradável é o índice elevado do Sudeste, por ser de longe a região mais rica do País. Por Estado, os campeões de perda foram Amapá (74,6%), Alagoas (65,7%), Roraima (64,2%), Maranhão (63,9%) e Acre (62,75).No outro extremo está o Mato Grosso do Sul, com apenas 19,5% e, no meio, o Rio de Janeiro com 46,9% e São Paulo com 32,5% - perdas muito altas para os dois Estados mais ricos.

O índice de perda física de água, que está na base do problema, é muito elevado, como lembra um dos coordenadores do estudo, prof. Rudinei Toneto Júnior. Mais de um terço de toda a água produzida no Brasil é desperdiçado, enquanto nos países desenvolvidos a perda é de no máximo 10%. No Japão, o campeão em eficiência nesse setor, ela é de apenas 3%. Aqui, o principal responsável pela perda são os vazamentos, que ocorrem por elevada pressão na rede distribuidora, corrosão e/ou idade avançada das tubulações, uso nelas de materiais inadequados ou fora de padrões técnicos e obras mal executadas.

As consequências dessa situação são as piores possíveis. As perdas físicas agravam o problema ambiental, porque maior quantidade de água tem de ser usada para cobrir o déficit no fornecimento, o que afeta os mananciais. E também aumentam o custo do serviço de abastecimento, porque em muitas cidades, como São Paulo, a água tem de ser buscada cada vez mais longe. Já a perda de faturamento afeta o equilíbrio financeiro das concessionárias e diminui sua capacidade de investir tanto na expansão como na melhoria da rede, para evitar vazamentos, por exemplo, o que cria um círculo vicioso.

Mas nem tudo está perdido. Há também bons exemplos a serem seguidos. Alguns Estados, pertencentes a regiões as mais diversas do País, como Mato Grosso do Sul, Tocantins, Ceará, Paraná e Santa Catarina, apresentam índices razoáveis de perdas físicas e de faturamento e, por isso, suas empresas têm um bom desempenho na ampliação da rede de água e esgoto.

Em São Paulo, onde as perdas físicas, de 26%, ficam abaixo da média nacional, a Sabesp promete investir R$ 4,3 bilhões até 2020, quando as perdas devem ficar em 13%. Parte desses recursos se destina a financiar acordos firmados com o Japão, para a compra de equipamentos e o treinamento de pessoal especializado na melhoria da rede distribuidora. "Nós estamos aprendendo com os japoneses como identificar vazamentos que não são visíveis no nível do solo", diz a presidente da Sabesp, Dilma Pena. Os equipamentos e os técnicos japoneses têm feito progressos na localização e conserto de vazamentos na rede da capital, responsáveis pela maior parte das perdas.

Iniciativas como essa, de custo relativamente baixo, são importantes para mudar a situação preocupante do sistema de abastecimento de água do País.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.