Deus viu que tudo era bom

Na encíclica Laudato sì. Sobre o cuidado da casa comum o papa Francisco observa que a crise ecológica atual precisa ser analisada a partir de vários olhares: filosófico, científico, histórico, religioso... No desenvolvimento de suas reflexões, ele próprio apresenta essas diversas abordagens, com o auxílio de especialistas em várias áreas do conhecimento. Como representante de uma religião, pede que, na explicação e na busca de solução para as questões ambientais, não se deixe de levar em conta a contribuição que as religiões têm a oferecer.

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 03h00

A Igreja Católica, aberta ao diálogo com as diversas interpretações do problema ambiental, deseja oferecer sua contribuição a partir do olhar da fé cristã, que tento expor aqui, brevemente, baseado na encíclica.

De fato, o cuidado da natureza decorre da fé dos cristãos no Deus Criador e do respeito a ele devido. A revelação bíblica ensina que toda a natureza existe por obra e graça do Criador, que viu ser “muito bom” tudo o que fez; também o homem, criado com dignidade inigualável (cf Gn 1,31). 

Na obra da criação, o homem é parceiro de Deus e recebeu o encargo de cultivar a terra e cuidar da natureza. Desde logo fica claro que ele não é Deus, nem dono do mundo. Mas é bem essa a sua tentação constante, origem da desordem nas suas relações com a natureza: apossar-se do mundo, como senhor absoluto de tudo. Custa-lhe reconhecer que “do Senhor é a terra e tudo o que nela existe” (cf Dt 10,14); e que lhe cabe respeitar a lei interna à natureza e no mundo, assim disposta pelo Criador.

O papa ensina que a Bíblia e a fé cristã não justificam um antropocentrismo despótico, desinteressado ou desrespeitoso das outras criaturas (n.º 68). Se alguma vez assim apareceu, deveu-se a interpretações equivocadas do texto sagrado. Diante de Deus, o homem não é o único ser deste mundo a contar. Também o Catecismo da Igreja Católica ensina que cada criatura tem um valor próprio, que o homem deve reconhecer e respeitar, evitando toda relação desordenada com as criaturas (cf n.º 339).

A fé no Deus Criador, único senhor do mundo, levada a sério, previne contra o risco de adorar outras criaturas ou poderes deste mundo, atribuindo-lhes um reconhecimento indevido; ou de pôr o homem no lugar do Criador, para justificar sua ganância e vontade de poder sobre as demais criaturas.

Afirmar que Deus é Criador não implica dizer que todas as coisas existem hoje do mesmo jeito que Deus lhes deu origem: a evolução é um princípio inerente à natureza e a todos os seres, isso não contradiz a fé no Criador. No entanto, para a fé cristã, seria pouco admitir que Deus é apenas uma espécie de princípio ideal da existência de todas as coisas: a natureza e o universo inteiro não surgiram por necessidade mecânica e casual, mas por uma vontade pessoal, um ato criador, livre e soberano, que de alguma forma se prolonga no tempo e na existência das coisas. 

Também a harmonia e a beleza do mundo não podem ser atribuídas ao acaso. A natureza é fruto da vontade amorosa do Criador: “Sim, tu amas tudo o que existe e nada desprezas do que fizeste; pois se odiasses alguma coisa, não a terias criado” (cf Sb 11,24).

Mesmo se a fé judaico-cristã ensina o respeito e a admiração pela criação inteira, essa mesma fé separa claramente as coisas: a natureza não é divina. O mundo e Deus são diversos; Deus transcende o mundo. Mesmo assim, o Criador quis o homem como seu colaborador no cuidado do mundo; por isso o homem não pode ser reduzido a um elemento “igual” ao restante das criaturas. Ele traz a imagem e semelhança do Criador, com capacidades que lhe permitem entrar em diálogo e sintonia com o Criador e de conhecer o seu desígnio amoroso em relação à obra de suas mãos.

Ao ser humano é permitido interferir livre e responsavelmente na natureza, para a pôr a seu serviço, contanto que respeite a harmonia disposta pelo Criador. Para tanto ele pode contar com a ajuda do mesmo Espírito Criador que, “no princípio”, criou o céu e a terra (cf Gn 1,1). O homem é capaz de realizar bem a sua missão e de reconhecer que nenhuma criatura no mundo é supérflua ou sem sentido. A natureza é como um livro aberto, muito bonito, onde cada elemento narra as grandezas do Criador. 

O papa Bento XVI lembrou que a natureza tem uma “gramática interna” que o homem precisa decifrar e conhecer para melhor compreender o desígnio de Deus Criador sobre toda a realidade e para um “uso sábio” da natureza, não instrumental nem arbitrário (cf Caritas in Veritate n.º 48).

O olhar da fé religiosa para a questão ambiental leva a perceber que as criaturas deste mundo não podem ser vistas como bens sem dono, disponíveis à posse do primeiro que as encontrar. Somos cuidadores e usuários deste mundo, enquanto nele existimos: “Tudo é teu, Senhor, amigo da vida!” (cf Sb 11,26). 

E porque o Criador é também Senhor do mundo, vai de consequência que os bens da natureza devem beneficiar todas as criaturas e nenhuma delas pode ser privada do necessário para existir e viver.

Isso vale especialmente para o ser humano: o interesse privado não pode privar os demais do necessário para viver dignamente. Vai daí que toda abordagem da questão ecológica também precisa ter em conta a justiça social e a preservação da dignidade e dos direitos dos mais desfavorecidos. 

Neste ponto, o papa Francisco volta à questão, nem sempre bem aceita por todos, da subordinação do direito à propriedade privada ao destino universal dos bens deste mundo (cf n.º 93). Trata-se de posição consolidada do ensinamento da Igreja. A natureza é patrimônio comum da família humana e seus frutos devem beneficiar a todos os que vivem e os que ainda viverão neste planeta.

*Dom Odilo P. Scherer é Cardeal-Arcebispo de São Paulo

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