Devemos gargalhar?

Os cerca de 20 mil habitantes de Canto do Buriti - município piauiense situado a cerca de 400 quilômetros de Teresina, a capital estadual - jamais poderiam imaginar que um evento aparentemente normal ali ocorrido fosse capaz de causar tanto estrago. Segundo as autoridades do setor elétrico, uma queimada numa fazenda de Canto do Buriti foi a causa do apagão que, na quarta-feira, deixou toda a Região Nordeste sem energia elétrica. O fornecimento começou a ser interrompido às 14h58 e só foi restabelecido para as capitais e principais municípios às 17h30. Mas cidades importantes, como Sobral, no Ceará, continuaram sem luz até a noite.

O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h16

No fim do ano passado, período em que sucessivos apagões atingiram boa parte do País, afetando a vida de milhões de brasileiros, a presidente Dilma Rousseff, irritada com essas ocorrências, passou a exigir, com veemência ainda maior do que normalmente utiliza em suas cobranças, explicações e providências para evitar a repetição desses fatos. Entre irônica e irritada, chegou a dizer: "O dia em que falarem para vocês que caiu raio (e isso interrompeu a transmissão de energia), gargalhem. Raio cai todo dia nesse país, a toda hora. Raio não pode desligar o sistema".

Desta vez não foi raio, foi queimada. Devemos gargalhar?

Certamente não têm motivos para rir os brasileiros que vivem nos nove Estados do Nordeste. Todas as capitais enfrentaram o caos no trânsito, por causa dos semáforos apagados; hospitais tiveram de acionar seus geradores para realizar os procedimentos de urgência; empresas industriais dispensaram seus funcionários antes do encerramento normal do expediente; lojas fecharam; escolas públicas e privadas, de todos os níveis, suspenderam as aulas. Bandidos aproveitaram a confusão para realizar arrastões.

Faz dez meses que a região enfrentou problema semelhante. Na ocasião, o blecaute foi atribuído a um curto-circuito numa linha de transmissão entre Tocantins e Maranhão.

Mas não são apenas os moradores do Nordeste que sofrem com interrupções do fornecimento de energia elétrica para regiões extensas. O problema ocorre em todo o País. Por isso, os brasileiros em geral não têm motivos para gargalhar. Têm, sim, para se preocupar com o estado em que se encontra o sistema elétrico brasileiro, que, no governo petista anterior, tinha como principal responsável a atual presidente da República.

Não custa recordar que, quando candidata ao cargo que hoje ocupa, Dilma Rousseff não poucas vezes utilizou o fato de ter sido ministra de Minas e Energia no governo Lula para garantir aos eleitores que, se eleita, não haveria mais apagões como os que haviam ocorrido no governo tucano, e que ela tanto criticava. Só nos últimos quatro meses do ano passado, foram cinco grandes apagões, que retiraram do sistema mais de 800 megawatts. Desde o início de seu governo, já são pelo menos nove - sem contar interrupções menores.

Em outubro de 2012, quando houve diversos blecautes, o então ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, hoje secretário executivo da Pasta, reconheceu que a sequência de interrupções no fornecimento de energia não era "normal". É quase impossível instalar e manter um sistema inteiramente blindado e imune a acidentes que causem a interrupção na produção, transmissão e distribuição, por causa do altíssimo custo que teriam os equipamentos de proteção necessários para se alcançar esse nível de segurança. Mas o consumidor tem o direito de esperar dos responsáveis pelo setor elétrico um sistema minimamente confiável e menos vulnerável a eventos que, causem ou não gargalhadas, provocam seu colapso.

Quatro apagões afetaram o Nordeste nos últimos 12 meses. É uma região naturalmente vulnerável. A seca e a falta de grandes rios tornam a região dependente de outras fontes ou de outras regiões produtoras. Mas a transmissão dessa energia, como mostra a frequência dos apagões, não alcançou o nível de segurança necessário. E isso não parece ser casual.

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