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Diálogo Brasil-EUA

* Rubens Barbosa - O Estado de S.Paulo

24 Junho 2014 | 02h 06

O Centro de Liderança Pública e o Strategy Group do Aspen Institute, duas prestigiosas instituições do Brasil e dos Estados Unidos, promoveram um amplo diálogo sobre o atual estágio das relações entre os dois países. Com a participação de personalidades da vida pública, privada e do mundo acadêmico, foram passadas em revista as relações políticas, econômicas e comerciais dos dois países. Dada a atualidade dos temas, houve também discussão sobre as implicações das próximas eleições presidenciais e da revolução energética nos EUA e sobre a futura relação bilateral.

A reação por parte dos representantes norte-americanos foi de certa perplexidade com toda a situação não só brasileira, como sul-americana. Alguns com pouca experiência no trato com Brasília, com ingenuidade e desconhecimento da situação política por aqui, perguntaram como o Brasil e os EUA poderiam trabalhar juntos para ajudar a Venezuela a sair da crise. Outros minimizaram a influência crescente da China na América do Sul e o impacto negativo sobre os interesses econômicos e comerciais do Brasil e dos EUA na região. Outros ainda não se deram conta de que nos últimos dez anos os EUA foram excluídos das novas instituições que têm por atribuição acompanhar as relações entre os países da região, como a Unasul e a Celac, com todas as implicações políticas e diplomáticas que isso está acarretando.

As duas maiores democracias no Hemisfério têm interesses e valores convergentes, além de outros, divergentes, que afastam os dois governos. O respeito mútuo e a defesa dos respectivos interesses devem sempre prevalecer.

O que não parece normal é o que acontece hoje com as relações entre países com tantos interesses comuns, sobretudo da parte do Brasil, que busca atrair inovação e tecnologia e procura aumentar e diversificar as suas exportações de forma a reduzir o déficit de mais de US$ 11bilhões na balança comercial.

As relações políticas e diplomáticas do Brasil com os EUA estão no nível mais baixo das últimas décadas. Não se trata de visão equivocada, como quer a versão oficial, vazada para a imprensa. As relações estão congeladas no tocante aos temas mais importantes. A negociação de acordos que interessam diretamente ao Brasil, como o acordo de facilitação de vistos e o de salvaguarda tecnológica, está paralisada. Visitas e conversações políticas e econômicas de mais alto nível estão suspensas. Isso sem falar dos diversos acordos com os EUA retirados do Congresso por pretextos burocráticos. Resistências ideológicas de alguns setores do nosso governo impedem assim que matérias de nosso interesse sejam tratadas, com prejuízo direto para o cidadão comum e para projetos de grande alcance.

Dada a grande diversidade das relações bilaterais, têm-se multiplicado as visitas ministeriais e outras técnicas operacionais, como ocorreu recentemente com a ida do secretário de Comércio Exterior aos EUA e a vinda do coordenador de Segurança Cibernética da Casa Branca para participar da conferência sobre governança cibernética em São Paulo. O que tem sido apreciado pelas autoridades brasileiras. As relações entre instituições privadas e o gosto da população brasileira pelas atrações oferecidas pela sociedade americana não tomam conhecimento dessas filigranas diplomáticas. Em 2013, mais de 2 milhões de turistas visitaram os EUA. Continuam e se expandem os laços privados nas áreas científicas e tecnológicas, de meio ambiente, de energia e em muitas outras áreas. E 10% dos estudantes no programa Ciência Sem Fronteiras preferiram estudar nos EUA.

As principais questões de governo, contudo, estão paralisadas, à espera de que seja superado o impasse presidencial. A presidente Dilma Rousseff declarou que as relações com os EUA somente seriam normalizadas depois de o presidente Barack Obama pedir desculpas e dar explicações satisfatórias pelo monitoramento feito pela NSA no celular presidencial e na Petrobrás. Como o presidente Obama não pediu desculpas nem à sociedade norte-americana, nem à primeira-ministra Angela Merkel, é difícil acreditar que venha a fazê-lo com o Brasil. O cancelamento da visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Washington, em outubro passado, e a demora em ser encontrada uma saída política para a crise mostram a baixa prioridade que os dois governos atribuem à relação bilateral. O desinteresse dos EUA na retomada das negociações da Rodada Doha e os difíceis entendimentos para evitar uma retaliação brasileira contra bens e serviços norte-americanos pelo descumprimento de decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) na questão dos subsídios ao algodão têm potencial de contaminar ainda mais o ambiente entre os dois países.

Esperava-se que o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, em visita a Brasília no último dia 17, pudesse fazer um gesto significativo em relação ao nosso país que contribuísse para superar a crise diplomática. Embora aparentemente não tenha havido nenhum sinal nesse sentido, surgem indicações positivas do lado brasileiro de que, depois das eleições, poderá haver um gradual descongelamento das relações com os EUA. Durante a campanha eleitoral prevalecerá a retórica antiamericana, como registrado no programa do PT.

O setor privado - por meio do fórum de presidentes de grandes empresas e do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos - deveria juntar-se a outras áreas com interesses concretos, tanto de um lado como de outro, para estimular os dois governos a superar as dificuldades atuais.

As relações entre os dois países são muito importantes para serem deixadas somente nas mãos das burocracias do Departamento de Estado e do Itamaraty.

*

PRESIDENTE DO CONSELHO DE COMÉRCIO EXTERIOR DA FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP)

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