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Dilma e o governo que não deu certo

*Aloísio de Toledo César - O Estado de S.Paulo

09 Julho 2014 | 02h 05

Neste momento em que a presidente Dilma Rousseff se dispõe a se reeleger, é importante lembrarmos que a expectativa dos brasileiros em relação a ela era muito mais favorável quando foi candidata pela primeira vez. De fato, naquela oportunidade ela surgia ungida pelo presidente Lula e era apresentada ao País como uma pessoa de grande capacidade administrativa, capaz de iniciar um período de crescimento da economia e de melhora das condições de vida de cada um de nós.

Não foi o que aconteceu. Com ela, o País debruçou-se em plano inclinado numa crise que atingiu quase todos os setores, mas em especial a economia, em desaceleração permanente e com a inflação ascendente, que Dilma decididamente não sabe como controlar. Além disso, não logrou conter o avanço da corrupção, que se tornou marca registrada de seu governo, sobretudo na Petrobrás.

A propósito, basta ligar a televisão para verificar uma suspeita insistência de propaganda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que tem monopólio em sua área de atividade, e também do Banco do Brasil e da Petrobrás. Esses órgãos do governo, rasgando dinheiro com publicidade, no momento em que os partidos políticos precisam de fundos para a campanha eleitoral, causam a impressão de investimento com finalidade certa: caixa para a campanha eleitoral.

Logo no início, ao formar o Ministério, a nova presidente agiu sem adotar um critério que preservasse o interesse público e distribuiu cargos a pessoas que não mereceriam recebê-los. Por esse deslize acabou sofrendo seguidos solavancos, decorrentes de escândalos envolvendo avanço no dinheiro público. O administrador público é guindado ao cargo para cuidar de uma coisa que não lhe pertence. Daí a necessidade de ser extremamente escrupuloso e, no mínimo, honesto.

Infelizmente, verificou-se que interesses individuais prevaleceram sobre interesses públicos e a administração se processou em muitos casos como se os bens de todos pertencessem aos próprios administradores. O pior de tudo é que os escândalos na Petrobrás e nos ministérios, com demissões e episódios escabrosos sempre renovados, propagaram uma fragilidade institucional danosa para a República.

O mais grave é que não obstante esses escândalos, decorrentes de escolhas erradas, Dilma não aprendeu com os erros e continuou a escolher gente ruim para o seu governo. É inacreditável que a presidente não tenha tido o cuidado de avaliar melhor as pessoas às quais entregaria fatias do poder. É igualmente inacreditável que não se lembrasse de que o exemplo do mensalão indicava claramente a necessidade colocar gente séria e competente ao seu lado.

A fragilidade e a mediocridade de sua equipe podem ser facilmente aferidas pela circunstância de que a grande maioria de seus 39 ministros nem sequer conseguiu ser conhecida pela população. Se a escolha do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República dependesse da escolha de algum desses ministros, bem como do destaque por eles alcançado, é muito provável que houvesse dificuldade para chegar a um nome.

A escolha dos ministros sempre ficou marcada pela concessão de poder em troca de apoio político. Nunca se levou em conta, como se fazia necessário, a real aptidão do escolhido para gerir dinheiros públicos e tomar decisões que afetam a vida de milhões de brasileiros.

É normal que numa democracia se realizem negociações de caráter político-partidário para a composição do governo, mas isso deve ser feito com elevação, com grandeza, e não como uma forma de comprar apoio no Congresso Nacional, como se fosse um mercado. Para aprovar leis, e causar a impressão de que está governando, a presidente cedeu o tempo todo a pessoas de biografia ruim, nada escrupulosas, como José Sarney e os atuais presidentes do Senado (Renan Calheiros) e da Câmara dos Deputados (Henrique Eduardo Alves). Essas transações, lamentavelmente, são marca do governo de Dilma Rousseff e ficarão na sua biografia para sempre.

Outro ponto em que falhou ao extremo foi a indiferença, quase desprezo, à forma como milhões de brasileiros se deixaram contaminar pela degradação das drogas e pelo crime organizado, fazendo do Brasil um dos países mais inseguros do planeta. Talvez pela primeira vez em sua História, o Brasil inverteu em parte o ciclo de imigrações e passou a registrar a triste fuga de brasileiros para outros países, mais seguros, onde as famílias não precisam viver em casas protegidas por grades e com enormes preocupações. Esse fluxo ainda não é muito expressivo, mas, lamentavelmente, existe.

A entrada clandestina no Brasil de toneladas de cocaína, craque e maconha ganhou fôlego em seu governo. Essas drogas são produzidas em países vizinhos e aqui chegam com facilidade, em razão de termos com eles uma fronteira de mais de 10 mil quilômetros.

Apesar de tais substâncias virem desses países amigos, não se viu nenhum esforço efetivo do governo de Dilma Rousseff em trabalho de diplomacia, e até mesmo de investimentos, que levasse à redução da produção de drogas. Se produzidas, elas aqui chegam, tornando claro que o fundamental é impedir a produção.

Isso talvez custasse menos do que o combate ao uso da droga. Infelizmente, entre os ministros que não alcançaram o menor destaque, nem demonstraram a necessária competência, está o da Justiça, ótimo para falar e dar entrevistas, mas que não teve sucesso algum no combate ao narcotráfico. A ressaltada apreensão de toneladas de maconha e cocaína, que a toda hora é divulgada, significa tão somente que as drogas continuam a entrar no País, quando o que se espera é que não entrem.

Nesse ponto, portanto, de muita relevância porque diz respeito à segurança de cada um de nós, o governo Dilma falhou inexoravelmente. Antes dela já era ruim; com ela ficou muito, mas muito pior.

*

DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO.

E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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