Dinheiro não é a solução

Há dias, a presidente Dilma Rousseff anunciou o Plano Brasil Medalhas 2016, que injetará R$ 1 bilhão na preparação de atletas com vista à Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Esbanjando confiança, Dilma declarou que a medida revolucionará o esporte do País. "Eu tenho certeza que este ato de hoje, esse R$ 1 bilhão, faz parte do início de um processo que vai mobilizar o Brasil no sentido de dar absoluto suporte aos seus atletas de alto rendimento", afirmou a presidente. "Nós iremos dar um salto e nos transformar numa potência esportiva, ou caminharmos em passos firmes para nos transformarmos."

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2012 | 08h45

Embora, como disse Dilma, seja "normal" que o país-sede de uma Olimpíada ambicione subir mais vezes ao pódio, o problema brasileiro na hora de disputar medalhas não é apenas de dinheiro. Ao contrário: nunca foram investidos tantos recursos públicos em atletas olímpicos do Brasil como nas duas últimas competições. Cada medalha que o País conquistou em Londres, com exceção da prata no futebol masculino, custou R$ 117 milhões, e o total utilizado chegou a R$ 1,76 bilhão - o dobro do gasto em Pequim-2008 (R$ 692 milhões) e seis vezes o que foi investido em Atenas-2004 (R$ 280 milhões). Mas foi na Grécia que o Brasil obteve o maior número de ouros (cinco).

O Brasil conta com financiamento permanente para o esporte através da Lei Piva, que desde 2001 repassa 2% da arrecadação das loterias federais para o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e seu congênere paraolímpico. Os resultados foram impressionantes. Antes da lei, o Brasil conquistou uma média de 4,4 medalhas por Olimpíada, entre 1920 e 2000; após a lei, entre Atenas-2004 e Pequim-2008 a média saltou para 12,5 medalhas. No entanto, em Londres-2012, a média foi de 14 medalhas. Isso significa que a injeção de recursos da Lei Piva e de outras iniciativas oficiais conseguiu alavancar substancialmente o desempenho do Brasil, mas só até certo ponto. O dinheiro, sozinho, não é capaz de acelerar a desejada transformação do País em "potência olímpica". Exemplos disso não faltam, e o Brasil deveria se espelhar neles. A Grécia investiu pesado como anfitriã em Atenas-2004 e obteve 16 medalhas, ficando em 15.º lugar; já em Londres, conquistou apenas 2 medalhas e ficou em 76.º lugar. A Espanha fez o mesmo ao sediar os Jogos de Barcelona-1998 e ficou em 6.º lugar, com 22 medalhas; em Londres, terminou em 21.º lugar, com 17 medalhas.

A julgar pelo Plano Brasil Medalhas 2016, porém, a meta do governo Dilma é apenas ganhar medalhas no Rio, e não desenvolver o esporte olímpico. O aporte bilionário bancará bolsas de até R$ 15 mil para 200 atletas que já estejam entre os 20 melhores do mundo em 21 modalidades olímpicas. Serão gastos R$ 310 milhões na construção e reforma de 22 centros de treinamento. Serão priorizados esportes nos quais o Brasil tem chance de medalha, como atletismo, basquete, boxe, vôlei, futebol feminino, ginástica, handebol, vela, hipismo, judô e natação. A ideia, como disse Dilma, é "mobilizar o Brasil" para apoiar atletas que devem subir ao pódio.

Não há nada no plano que indique algum tipo de novo investimento no esporte de base e nas escolas e universidades, capaz de criar condições reais para a formação de atletas, como acontece nos países que são potências olímpicas. O Plano Nacional de Desporto, previsto na Lei 9.615, de 1998, e que deveria ser o pilar dessa política esportiva, ainda não existe. Além disso, o COB passou bastante tempo destinando suas verbas aos esportes que já produzem campeões e têm forte patrocínio, deixando a formação de atletas em segundo plano. Enquanto isso, nos EUA, o esporte universitário recebeu o equivalente a R$ 24,2 bilhões em investimentos no ano passado, ao passo que a fatia da Lei Piva destinada ao esporte universitário no Brasil ficou bloqueada no COB.

Assim, o Plano Brasil Medalhas 2016 pode até poupar o País de um vexame olímpico, mas terá fôlego curto, muito longe de ser um investimento realmente transformador da cultura esportiva no Brasil.

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